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    N coisas


    Kafka

    O Complexo de Édipo e o Estado Paterno

    Esboço de uma Psicanálise popular


     

    Este artigo é a tentativa de articulação da teoria Freudiana do complexo de Édipo em uma visão social. É fruto de reflexões provocadas pelas exposições de Psicanalistas da Escola Lacaniana de Brasília no curso de introdução à Psicanálise e de meu percurso de 8 anos no trabalho social.

    Rebeliões no Egito, serviços públicos de má qualidade, mundo virtual, crise, indústria farmacêutica . Como a psicanálise pode pensar sobre estas novas ligações sociais que surgem?

    Em Psicologia de grupo e análise do ego, Freud nos fala que poderíamos analisar processos parecidos em grupos sociais mais estreitos, na família, por exemplo, para se chegar a uma melhor compreensão de um instinto social. Este artigo pretende seguir este caminho. A partir da teoria do complexo de Édipo, que se dá na primeira relação grupal do ser humano, a família, buscarei traçar um paralelo com uma dinâmica social, uma “família maior”. Esta proposta é a tentativa de perceber, através desta teoria freudiana, as dinâmicas inconscientes e determinantes na trajetória social dos indivíduos modernos. E ainda vermos que movimentações os humanos fazem nesta sociedade contemporânea.

    Freud formulou o complexo de Édipo a partir da tragédia grega Édipo Rei, de Sófocles, que falava da profecia de um parricídio e de um incesto. Laio, o pai, sabendo desta profecia, entregou seu filho recém-nascido a um pastor com a ordem de deixá-lo no monte Cithérion. O pastor descumpriu a ordem, entregando Édipo a um servo do reino de Corinto, que o entrega ao rei, cuja mulher é estéril. O casal real adota Édipo como filho e não lhe falam das suas origens. Édipo, quando adulto, houve boatos de que não seria filho do casal real e decide consultar o oráculo, que anuncia o que já fora anunciado: Édipo iria matar seu pai e casar com sua mãe. Na tentativa de fugir desta horrível profecia, volta a Corinto e parte em direção a Tebas, cruzando com Laio, que se dirigia a Delfos para consultar o oráculo. Os dois brigam neste encontro e Édipo acaba matando Laio sem saber que era seu pai. Jocasta fica viúva de Laio. Creonte, irmão da viúva, assume o reino e oferece o trono da cidade a quem fosse capaz de derrotar a esfinge. Édipo consegue derrotar a esfinge, que desaparece nas trevas. Grato, Creonte não só oferece o reino como a mão de sua irmã, Jocasta. Após um período de prosperidade, uma peste abate Tebas e Creonte é enviado a Delfos para consultar o oráculo, este diz que esta peste é um castigo pelo assassinato de Laio e que só acabaria quando o assassino fosse sacrificado. O rei de Corinto morre, o informante que traz esta mensagem a Édipo fala de suas origens. A partir desta revelação, Jocasta e Édipo começam a acreditar na profecia. Jocasta se enforca e Édipo fura os próprios olhos. Cego, parte para Colona acompanhado de sua filha, Antígona, deixando o trono para Creonte que novamente assume o poder e a profecia se cumpre.

    O que levou Freud a usar esta tragédia foram suas histéricas que se queixavam de seus pais perversos e incestuosos em sua realidade psíquica. O uso desta peça ilustra a relação simbiótica que o filho tem com a mãe, seu primeiro objeto de prazer, de amparo e de suprimento de todas as suas necessidades, e a relação amor-ódio a partir do dia que o pai entra nesta relação a dois, barrando o desejo do filho, fazendo um quarto e o colocando lá, ou comprando uma cama separada da dele e de sua mulher. O pai se torna um adversário.

    O desenvolvimento do Édipo é entrelaçado pelos desejos sexuais da criança para os pais que, mais tarde, após o período de latência, ocorre uma repressão. Adiante o sujeito sublimará seus desejos sexuais para desejos amistosos em sua tentativa de convívio pacífico na sociedade. (Freud em Psicologia das massas e análise do Ego, p.148). Após o período de latência, o indivíduo está pronto para ser inserido na cultura e começa a percorrer (ou não) os caminhos que a sociedade o propõe.  

    Fazendo uma nova configuração desta relação, proponho aqui em ver uma instância paterna no Estado, enquanto Governo Soberano, e uma instância materna em seus serviços de assistência ao cidadão, já que destes é proveniente toda a sensação de amparo do indivíduo, ou assim deveria ser. Freud dá pistas de que estou indo bem nessa análise quando leio Totem e Tabu e percebo que, nas configurações das tribos primitivas citadas na obra, existia um pai que em troca de favores, exigia o respeito de seus filhos. Neste momento, a força fazia a lei. Um dia, os filhos se unem e se revoltam contra este pai que amam  odiando e o matam. Neste terceiro momento se dão conta de que o que cada um queria em segredo – tomar o lugar do pai – não poderá ser feito, assim, renunciam à satisfação incestuosa (TABU), pois ocupariam o lugar do pai, gerando mais violência, e vão em busca de suas mulheres em outras tribos, instalando assim o horror ao incesto e à exogamia (união de raças distintas). O pai, a partir de então, é um ser mítico que continua tendo influência sobre seus filhos, mesmo morto (TOTEM). Freud deixa claro que daí também surge a configuração das religiões de nossa época, dando amparo aos sobrecarregados através de um pai “vivo-morto” e estabelecendo preceitos morais, fato que aqui não terei tempo para abordar.

    Destaco aqui trecho do livro Totem e Tabu – Um mito Freudiano, de Caterina Koltai que diz:

    “(...)O importante é que se preserve o fundamental, a lei universal da proibição do incesto que assegura a subjetivação. Se não for pela lei do pai, será por outras leis, visto que para ele os simbólicos são múltiplos e historicamente mutantes.

    (...) Freud, em 1913, ao escrever Totem e Tabu, não estava à procura de um equivalente sociológico ou histórico do complexo de Édipo. O que interessava era afirmar que as sociedades humanas eram fruto da articulação mítica do assassinato do pai da horda por seus filhos, assim como da proibição do incesto daí decorrente e do estabelecimento de um laço social pela culpa, unindo post mortem o pai e a lei.”

     

    A este filho-sujeito-cidadão resta o desamparo e mecanismos que julga serem meios de conseguir sua independência social com a intenção de depender menos deste Estado-Pai.

    Este Estado-Pai é norteador da conduta social dos sujeitos, com suas leis e castrações aos rebeldes, cobrando de um lado, e prometendo seguridade, por outro. Parece-me o impasse visto em famílias que os pais têm dificuldades de assumir seu lugar quando o filho pergunta: Pai, posso fazer isso ou aquilo? O Pai responde: pergunte à sua mãe! À criança falta a resposta, o amparo, o olhar ou talvez a pergunta socrática: Por quê?! Fazendo a criança elaborar seu desejo. Na família social, esta falta de seguridade é o motor das tensões sociais por não amparar seus filhos. Este sistema tem outro combustível essencial que é o dinheiro, exageraríamos aqui em dizer que o dinheiro age como uma pulsão?

    Os filhos que possuem este combustível pagarão (nos dois sentidos) pela pendência deixada pela mãe e pelo pai, os filhos que não possuem, clamarão por serem reconhecidos “cidadãos de direito”.

    Na tentativa de emancipação, me lembro do Grande Irmão da obra 1984, de George Orwell. O grande irmão está olhando para todos e tudo, ouve-se sua voz nos parques, seus mandatos, suas leis, todos o respeitam, mas nunca o viram. Esta dúvida em ser visto ou não, por este Ser Supremo, detentor da ordem da cidade, é a grande causadora de uma neurose coletiva. Volto a Freud em Psicologia das massas que cita a Igreja e o exército como exemplos de grupos bem estruturados a partir da identificação de seus membros, bem como o investimento libidinal no líder. Koltai diz: “A massa aqui descrita se organiza sustentada na ilusão, a da presença visível ou invisível de um chefe que ama todos os membros com o mesmo amor, o que permite que os membros do grupo também se amem entre si, uma vez que cada um deles substitui seu ideal por um mesmo objeto comum, o líder” (IDEAL do EGO)

    A contemporaneidade exige respostas da Psicanálise. Novas formas de famílias surgem, o virtual é registrado na análise como um tempo on line, a angústia do existir faz a indústria farmacêutica produzir ansiolíticos mais potentes e a omissão do Pai-Estado faz surgir padrastos com o nome de ONG. Caterina Koltai questiona se estamos vivendo em uma cultura de totens sem tabus, e percebemos isso no aumento da violência. Será uma decadência do pai?

    Lacan nos fala do declínio da imago paterna em sua tentativa de transformar o pai numa função simbólica. A Lei do Pai inscreve o sujeito na linguagem. O que acontece àqueles que não se inserem nesta lei? Podemos pensar no aumento da população carcerária, por exemplo, como um retorno a um Pai tirânico?

    Faço uso aqui de Michel Foucalt dizendo:

    “Estamos sob o signo do “vigiar de perto”. Dizem-nos que a justiça está sobrecarregada. Nós bem o vemos. Mas, e se foi a polícia que a sobrecarregou? Dizem-nos que as prisões estão superpovoadas. Mas, e se foi a população que foi superaprisionada?” (Em Vigiar e Punir)

     

    Revoluções como a do Egito, ao “matar o pai” tirânico, faz surgir um desamparo seguido da pergunta: quem colocará no lugar?

    Para mim, enquanto filho deste Pai-Estado e estudioso da clínica de Lacan resta a tentativa de se deslocar, de um “ser no mundo” para “ser do desejo”, acreditando que alguns sintomas dos analisandos são frutos de uma implicação política e que a teoria psicanalítica tem muito a dizer destes processos.  A análise possibilita dispositivos para o neurótico produzir através de sua neurose. Em relação a isso, Lacan tem dois aforismos interessantes: “O inconsciente é a política” e “o inconsciente é o discurso do Outro”. Estamos fadados assim a cantar o canto do mal estar na civilização?



    Escrito por ViniDias às 02:28:30 PM
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    Vídeo de Margot Ribas, mostrando o despreparo da polícia, que coitados, se sentiram desrespeitados.



    Escrito por ViniDias às 07:21:43 AM
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    Vídeo Crianças

    Exemplo de publicidade inteligente e sadia.



    Escrito por ViniDias às 10:46:32 AM
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    Poesia

    Tapete Sujo

     

    Era a época dos jornais on-line

    E não sabia o porque continuar gastando dinheiro com os impressos

    A marca no dedo

    O medo de contaminação nas roupas

    Sua mãe sempre ensinara que jornal é coisa suja

    E ele viu várias vezes os montadores na madrugada da Presidente Vargas

    Imobilizando os jornais no chão.

    O mesmo chão mijado

    O mesmo jornal em preto e branco

     

    A vida era sempre mais

    Com seu colorido ofuscante

    E ele só tinha olhos pra maravilha da vida

    Se questionava se era realidade ou ilusão

     

    E comprava jornais

    Todas as manhãs

    E via em preto e branco

    Para amenizar o colorido da vida

    E perguntava se era realidade ou ilusão

    Verdade ou mentira

     

    Só sabia de uma coisa:

    Jornal era coisa suja

    Porque sua mãe dizia 

     



    Escrito por ViniDias às 04:22:50 PM
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    Contra Racismo

    A atualidade de Hitler

    Impressiona como em pleno secúlo XXI ainda se encontra manifestações racistas, anti-semitistas. Quase sempre essas posturas partem de pessoas que tem o status de letrados, intelectuais e formadores de opinões.

    Já foi comentado aqui neste blog que o nazismo está bem vivo. Isso se deu em referência a capa do Jornal O Globo que vinha a fotografia do caixão de Augusto Pinochet, em dezembro de 2006 e um de seus familiares fazendo a saudação hitleriana de impostação de uma das mãos.

    Aqui no Brasil proliferam-se movimentos simpatizantes à impostação de suas ideologias, geralmente ligados à música, estes jovens seguem o padrão do protagonista do filme Uma outra história americana, o ator Edward Norton que interpreta Derek, um jovem americano, nazista radical. Em setembro de 2009 isso ficou bem claro quando apareceu na televisão as imagens de jovens Skinhead de Curitiba assassinando outro jovem que foi confundido com um Punk.

    Para completar a onda de fatos vergonhosos (E atuais!) tivemos esta semana circulando nos meios de comunicação algumas frases de Monteiro Lobato, onde fica claro a sua vontade de uma "poda" na sociedade para extinguir os custumes do negro e sua lamentação. Entre as pérolas de Lobato destacamos: 

    "(...)Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral – e no físico, que feiúra! Num desfile, à tarde, pela horrível Rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível – amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde. E vão apinhados como sardinhas e há um desastre por dia, metade não tem braço ou não tem perna, ou falta-lhes um dedo, ou mostram uma terrível cicatriz na cara. “Que foi?” “Desastre na Central.” Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? Que problema terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na sua inconsciente vingança!..." (em "A barca de Gleyre". São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1944. p.133).


    Em correspondência trocada com o médico Renato Kehl, Lobato solta: 

    “Renato, tu és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. (...) Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade precisa de uma coisa só: póda. É como a vinha". 


    Fica a reflexão!



    Escrito por ViniDias às 04:37:21 PM
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    Morte de Moacyr Scliar

    Uma lágrima na página

    A mágica de sentir próximo pela leitura.


    De todas as tristezas que não conhecia muito bem, a morte de escritores sempre foi a maior de todas. Foi assim quando soube da morte de Zélia Gattai , de José Saramago e Moacyr Scliar , por último. Não sei porque, mas quando ouço a notícia nos noticiários meus olhos lacrimejar, fico triste.

    Minha relação com estas pessoas escritoras é única, compartilhei momentos de solidão e silêncio, assim como eles, talvez, precisaram para escreverem suas obras. A leitura de suas obras foi com certeza o motivo desta intimidade, ali por mais fantasiosa que sejam suas obras sei que estou conhecendo uma das estruturas mais internas de seu ser: o pensamento, que advem da alma.

    Fiquei íntimo e vi a cegueira de uma outra maneira por Saramago. Seriam os mais cegos os que tem visão? Das obras de Zélia não li nada, mas de seu marido, Jorge Amado, percebi o amor em seus versos, o que me fez acreditar que ela compartilhava com seu marido a visão poética da traquinagem e a inspiração do amor, assim vi em mar morto e capitães de areia, e chorei ao saber da morte de sua companheira.

    Hoje, fico sabendo pelo Twitter da morte de Scliar. Nossa relação se deu em seus contos que misturavam a causa judaica e a mistura de fantasia com realidade, sempre, mais realidade do que fantasia, tanto que, me perguntava: será possível?? Lembro de Scliar comigo num ônibus, olhando as pessoas junto de mim, Scliar é gaúcho, mas repensava o ser humano em Santa Cruz comigo. Perder estas pessoas é perder alguém próximo, um familiar, e só pode causar tristeza.

     



    Escrito por ViniDias às 12:49:15 PM
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    Sobre ser Amélia

    Uma boa discussão sobre o que é adquirido e o que é inato nas mulheres. Programa Saia Justa



    Escrito por ViniDias às 10:10:54 AM
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    Política

    Tudo vale a pena quando a alma não é pequena

    Trata da percepção de um leigo no senado federal

     

    Fui ao Senado Federal no dia 14 de Fevereiro, era uma plenária sem pauta específica, os senadores tinham 20 minutos para discurssarem sobre o que quizessem. Cheguei e tinha uma senadora dando algumas lições de moral nos poucos que lá estavam sentados. Os acessores desta senadora colocaram tanta coisa no papel, que entre o que estava escrito e o que ela pensava o tempo foi se indo e os vinte minutos não foram suficiente para concluir sua idéia, o presidente da mesa deu mais cinco minutos, depois mais três, depois mais dois.

    Até aí morno!

    Subiu ao palco o Senador Álvaro Dias (PSDB-Pr) e começou a dar uma saraivada de números, querendo embasar a tentativa do PSDB de conseguir um salário mínimo a R$600, dois senadores do PT (Lindeber Farias e Gleisi Hoffmann) levantaram seus microfones (o que é sinal que querem fazer um aporte) e combateram seus números. Foi aí que percebi a malandragem! Quando um Senador da oposição começa a discursar um tema contrário aos de seu opositor, os acessores começam a trabalhar. Buscam dados na internet, imprimem ou vem falar no pé do ouvido de seu patrão para assim deixá-lo informado e ter melhores argumentos. E assim se deu esta discussão. O Senador Álvaro Dias levantou a questão, neste momento o Senador Lindeberg Farias conversava com uma senhora (que não sei se era sua acessora), porém deu dados que não batiam com o do senador da oposição, logo depois a senadora Gleisi provocou, dizendo que se o senador que estava no palco gostava tanto de dados e usava o TCU (Tribunal de contas da União) como base dos dados, deveria ler o jornal A folha de São Paulo daquele dia, pois citava uma reportagem que não dava crédito ao TCU. O acessor de Álvaro Dias neste meio tempo está trabalhando, e neste momento surge, sorrateiramente atrás do senador (que enfrenta todas essas críticas com um sorriso inabalável) e lhe passa uma folha de A4 impressa com um texto de umas dez linhas, com algumas frases grifadas em vermelho, o senador rapidamente lê, e em sua réplica solta mais dados que estavam no papel.

    Este é o jogo político. O jogo falso, onde a pessoa que está falando nem sabe o que diz. Quem trabalha realmente são seus acessores, que ficam atentos onde a defesa de seu adversário é mais fraca, e ali atacam. Abrem o Google rapidamente e digitam qualquer coisa que os convém, pronto temos um circo armado. Uma retórica muito diferente da época dos tribunais gregos, onde tudo começou e ainda é inspiração para estes nobres senhores quando vão a tribuna. Só que lá, o palestrante apenas contava com seu intelecto, vivência e habilidade.

    Vale a pena ir no senado, ou na câmara dos deputados. Ali você vê como se dá o jogo falso, os deputados e senadores que cochilam, a falta de atenção do presidente da mesa, que neste dia ficou de sorrisinhos com um "super-animado" que lá chegou, tomou de assalto, falou com todo mundo, subiu ao palco e ficou de conversinha fiada (percebia-se pelas risadas)

    Vale a pena



    Escrito por ViniDias às 10:48:58 AM
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    Uma revolta inútil, ou uma recaída no Big Brother

    Assisto o Big Brother Brasil! Não por vontade própria, mas pelo fato de na minha casa a televisão sempre estar ligada, e meus familiares gostarem.

    Sempre fui um revoltado com este programa, desde o primeiro dia. Nos quatro primeiros, me revoltava a ponto de não conseguir dormir, tentava explicar para a minha família a manipulação, a falta de garantia que eles tinham de ali ser mesmo um ambiente "sem a interferência externa", que a cada mensagem de texto que o Bial pedia, existia um contrato milionário com a empresa de telefonia. Os patrocinadores também ganhavam muito e para isso tinha todo um texto, elaborado, discutido com a equipe de produção, e aí ficava claro a manipulação. Sobrava pouco, pouquíssimo de verdade. Recomendava o livro de George Orwel em que o programa foi inspirado, neste livro falava de uma cidade governada pelas cameras, o povo com medo, limitado diante de um ditador que nunca, ninguém viu. Uma paródia ao poder do Estado também. Que Estado, que sistema? Somos nós o sistema, ou existe algo oculto que nos oprime?

    Essas eram algumas das tentativas que eu fazia sem sucesso.

    Mas isso só fazia minha saúde desgastar. A partir do quinto BBB, resolvi que a maior revolta que eu poderia ter, era não ver, quando estivesse na sala, iria pegar um livro, colocar um fone no ouvido ou entrar na internet.

    Hoje tive uma recaída!

    Cheguei em casa, após um dia de quase 40 graus no Rio de janeiro, não tinha luz. Fiquei feliz por não ter BBB , mas para o meu breve deleite a luz voltou!! Foi comemorado por minha tia automaticamente ligando a TV. Já estava no programa. Elas me explicaram que um tal de "Mau-Mau" estava voltando à casa, que ele tinha saído e deixado uma namorada lá, esta menina saiu neste meio tempo que ele estava fora, com um rapaz, que estava na casa. Perdi tempo vendo a discussão dos dois. Ela querendo provar que não era uma vagabunda, ele querendo saber tudo o que já sabia, pois estava aqui fora. Uma discussão ecenas editadas reafirmando vergonhas sociais que carregamos: preconceito, machismo, promiscuidade...É um discurso velho, careta e moralistada para alguns, mas enquanto tivermos esta praga da televisão,  na maioria dos lares brasileiros, teremos um entrave na formação de um povo crítico e livre. Talvez o problema nem seja a televisão, mas o conteúdo que os grandes canais disponibilizam. Meu otimismo vem do fato de perceber que os computadores estão entrando também nos lares, tirando alguns felizardos do abatimento passivo que a tela dá aos rostos e dando uma certa autonomia aos diversos gostos. Sei que não vai adiantar nada todo este texto, mas preciso refletir, e aqui é um canal de expressão livre, tanto pra mim quanto para os que comentam. E não tenho parceria com empresa nenhuma. Só gosto de pensar.



    Escrito por ViniDias às 10:57:00 PM
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    A linha do sorriso

    Era um tumulto. No passado a predominância era de homens, mas hoje vemos muitas mulheres aqui, e crianças também.

    No começo eles também se escondiam, mas agora quando o trem passa, tem uns que até fazem caretas, dão beijinhos e adeus. Sempre vejo um sorriso nessas horas na passagem rápida da janela, em meio ao cinza do muro e o verde do capim As vezes falta um dente, falta grana, mas o que não falta é o pensamento fixo, geralmente instalado quando se acorda.

    A linha é um território de ninguém, ou do mais forte. O poder é exercido como nos “lugares comuns”: com a mistura de sexo, dinheiro e influência. Tendo isso, você é o superpoderoso desta noite. Mas fique sabendo que sua majestade não durará pra sempre. Você precisará dormir. Esteja sempre alerta e forte, se possível for. Corra! Se preciso for.

    Você poderá descolar uma amante pra hoje, ou alguém que lhe faça sexo oral por 5 reais.

    Você verá homens que se tornam mulher, e mulher que se tornam homens. Não esquente a cabeça, não tenha preconceitos. Tudo dura no máximo uma noite! E é rápido. A não ser que seu sorriso acabe. A não ser que seu sorriso acabe.

    Tudo pode acabar: seu filho, sua mãe, sua roupa, seu carinho, o sexo, sua amizade, menos...

    O Sorriso.

    E para sorrir, você tá ligado o que precisa.

    É preciso sorrir, porque se não o que será de você que está aí quando o trem passa?

    O que será de nós, daqui, dentro do trem?



    Escrito por ViniDias às 06:47:03 PM
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    Pode ser, pode não ser.

    Já postei algumas coisas aqui no blog sobre cinema, gosto muito do tema, e da arte. Uma das minhas maiores vergonhas é de não ter assistido o filme Matrix, todas as pessoas se referem a ele como um divisor de águas na tecnologia cinematográfica e de uma inteligência interessante. Por não ter visto, fico bem atento quando as pessoas se referem a palavra Matrix, que depois do filme é muito usada. Me parece uma daquelas palavras que o povo toma como uma obsessão de linguagem, assim como o "pode crer", a "globalização", o "sistema", a "pacificação". São palavras que estavam lá, guardadas, quietas e que derrepente surgem, resurgem com total força e começamos a esbarrar a todo momento nas esquinas e dar um "oi".

    No evento Arena Brasil,o cantor GOG, na posse da nova presidenta, se referiu ao termo "marginal" como uma matrix (sic), levantando dúvidas sobre o que é ser marginal.

    Geralmente o marginal é citado por alguém que está no centro, ou que julga ter a visão do todo, e percebe, a margem, o centro, e ainda seu lugar, dita as latitudes dos personagens sociais. GOG levantou no show se realmente a periferia é periferia, como margem, como segregados, a partir de que ponto de vista pode-se dizer: você é margem? Segundo o rapper, esta margem, é quem cria e recria uma cultura rica e diversificada, com rodas de samba, candomblé, sarau de poesia nos bares, bate-bolas, carnaval, além de que, com todas as situações adversas, esta margem, acorda cedo, vai trabalhar, dá atenção aos filhos, visita a família no domingo. O dinamismo, a criatividade e a mágica de sobreviver com tão pouco dinheiro está ali, na margem, que movimenta o centro, pois esta margem, em sua maioria, sai da sua comunidade para servir "aos do centro" e depois volta para seus lares. Afinal, quem é centro e quem é margem?

    Um pensador uma vez falou: "Todo ponto de vista é a vista de um ponto". Estes termos pejorativos só servem para enfraquecer e ridicularizar um processo forte, dinâmico e transcendental, que ameaça, que sempre esteve ali, tolerando com educação a tirania dos neo colonizadores da mão de obra barata, do trabalho escravo dissimulado, das empregadas domésticas, da não voz dos filhos de empregados, do horror ao negro, ao nordestino...

    Preciso ver o filme, e reavaliar sempre, pois o que parece ser, pode não ser.

    Acredito na História, essa não tem como ser modificada e com ela nas reverberações que os ecos da antiguidade nos trazem. A isso, precisamos estar atentos e não pensar que é um Djavu, mas isso é outro filme e o nome de uma banda nordestina que está fazendo muito sucesso.



    Escrito por ViniDias às 12:12:38 PM
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    Favela

    Tome o microfone: apenas queremos testar você

    Surge novas vozes na favela. Uns cantam bossa, outros gritam

     

    Vejo em uma coluna do Globo de hoje, a indignação dos "funkeiros do bem", sobre a prisão de alguns M.C's por fazerem "apologia ao tráfico". Os "do bem" alegam que os meninos presos são moradores da favela, que só retratam o dia dia e fazem uma pergunta: Vão fazer música de apoio à polícia ali?

    Tenho admirado muito a posição séria de José Júnior do AfroReggae, que acabou inserindo uma nova profissão no terceiro setor: O conciliador de conflitos. Trata-se de uma pessoa com vivência na pobreza, na favela e que tenha condições de mediar um conflito. Geralmente este conflito é de interesses da favela, da comunidade, da classe mais baixa com o Governo, o Estado, a classe dominante.

    Junior, tem verdade na fala e na postura. Sabe que se alguma coisa der errado ele é o primeiro a dançar. Começa a ganhar o respeito de figuras como Sérgio Cabral, empresários do bando Santander, Petrobrás. Com isso mistura muito bem as cidades partidas do Rio de Janeiro, criando oportunidades, desmistificando o favelado para a elite carioca e do Brasil.

    Na entrevista ao programa Roda Viva da TV Cultura, mandou muito bem em meio ao desespero dos entrevistadores. Em uma roda de intelectuais, comandados por Maria Gabriela ficou claro que queriam saber sobre esta novidade que surge: a fala da favela, novos rituais, novas linguagens, relações com a polícia, migração do tráfico... Faziam perguntas atropeladas, deixavam claro que a pobreza precisa ser compreendida para uma melhora de vida, inclusive, da classe média. Foi um desespero! No final Júnior pediu a Maria Gabriela que aprendesse a ouvir, que ela era muito ansiosa. Um delicado tapa do favelado.

    Tanto os funkeiros presos (e os soltos) e ativistas políticos que surgem no cenário nacional vem do mesmo quintal social: a favela. Porém os caminhos que seguem são muitos distintos. Os funkeiros resolveram exaltar o tráfico, o sexo com menores, o poder das grifes, fazendo algo que para a lei trata-se de apologia. Se defendem, querendo abrir uma fenda na justiça e justificar sua conduta. O máximo que conseguiram fui um habbeas corpus. Outros advindos do mesmo local seguem o caminho mais político, de infiltração em meios que até criticavam (vide MV Bill na malhação), mas parecem perceber que para a revolução acontercer, estar inserido é o melhor caminho. Uma velha discussão dos tempos da implnatação do Socialismo em alguns países: enquanto uns achavam que o melhor para implantação era a quebra total com o capitalismo, outros pregavam a inserção no sistema monetário para em suas brechas a invalidação do mesmo.

    É um fenômemo bacana de se acompanhar. Diversos movimentos revindicatórios de uma classe esquecida, que surge forte, representada e até "apadrinhada" por diversas autoridades.

    Alguns saberão aproveitar a chance dada e sair da invisibilidade, outros não sabendo o que fazer com a corda da liberdade, se enforcarão.



    Escrito por ViniDias às 03:34:21 PM
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    Sobre Prisões

    A série OZ fala da tentativa de se fazer uma penitenciária diferente das demais. Chamada de Esmerald City, encontra-se no complexo prisional Oswald Maximum, ou OZ, como é conhecida pelos presos. Uma série bem feita, como a maioria feita pelo canal HBO. Tem toda a rotina dos presos, as gírias, a entrada de drogas na cadeia e a venda interna, as disputas internas por liderança e poder.

    O personagem Said é um líder muçulmano e consegue uma posição de liderança por seu exemplo e uso de suas idéias. É a figura que sempre é chamada pelos diretores das duas cadeias quando o bicho está pegando.

    Não é difícil se fazer um paralelo com a realidade brasileira. Parece que cadeia e sistema prisional é o mesmo em qualquer lugar.

    A série conta com um narrador que em momentos OFF solta frases reflexivas sobre alguma passagem periódica do episódio. Este mesmo narrador, que é um preso de OZ, também apresenta ao ouvinte a sentença pega por alguns presos e seus respectivos crimes. Os crimes são mostrados na realidade da execução, fora do cenário de OZ.

    Num dos capítulos finais, Said, tem uma conversa com o diretor de Esmerald City, tentando conter uma rebelião, o diretor promete cumprir algumas das exigências dos presos, mas Said diz que o problema maior não é esse. Nada irá adiantar se a entrada de drogas for permitida (algo que já é em todas as cadeias), as visitas íntimas sejam liberadas, seja retirada a solitária. Segundo Said o problema está na educação destas pessoas presas, que em sua maioria tem a cor negra, são homens maltratados pelo Estado, geralmente com empregos subalternos e reconstroem uma história que foi escrita por seus antepassados. A revolução que Said quer é esta, mas abrangente, mas o diretor o pergunta: “o que posso fazer?”

    Esta série lembra discussões do filósofo Michel Foucalt que fez um grupo de estudos para a questão prisional, suas questões parecem ser as mesmas mostradas em OZ, bem que Michel Foucalt fazia isso diretamente, alertando e denunciando o sistema, era um intelectual que levava o tema as rodas acadêmicas e não parava por aí, para ele a discussão não podia se ater a prisão, mas deveria abranger ao Poder, que é algo que está permeando todas as relações humanas. Já em OZ temos uma obra de ficção, que horas parece denunciar, horas mostrar o cotidiano prisional em seus mínimos detalhes: a saudade da família, a homossexualidade forçada pelos mais fortes, o arrependimento do crime. Conseqüentemente também fala de Poder. Said e Foucalt pareciam querer organização dos presos, isto é o mínimo para os movimentos minoritários serem ouvidos e respeitados.

    Discussões como estas e a intolerância com a deficiência das prisões parece que é algo que terá que ser [re]discutido a um nível popular. É fato que as cadeias não recuperam as pessoas, pelo contrário, é uma escola do crime. Os governos gastam muito dinheiro com este sistema. Ainda temos práticas de tortura...

    Tudo isso me faz lembrar uma época que o manicômio  era um estabelecimento normal e tolerado por muitos, ao começar o movimento da luta anti-manicomial, começou a vir a tona as rotinas dos manicômios e os resultados ineficientes. As primeiras reações foram contrárias a soltar os loucos pelas ruas da cidade. Hoje, os loucos convivem com nós perfeitamente assim como os bandidos. Perceberam que o confinamento causava mais maul do que bem (em alguns casos). Qual será o dia que não aceitaremos bandidos soltos disfarçados de chefes de famílias enquanto pobres sedentos por pão e dinheiro alimentando esta máquina mortífera.



    Escrito por ViniDias às 08:46:04 PM
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    Poesia


    SÉCULO XXI – 1º ATO

    O Equilíbrio. Ser Equilibrado.
    Seguir rotinas sem se queixar
    Ser sóbrio, calmo, correto
    Ser disciplinado, ordeiro: disciplinado!
    Acordar cedo para trabalhar.
    Ter um computador com acesso à Internet
    Ter um “e-mail” e um celular de conta
    Que bata fotos e conecte à rede.
    Ir à igreja, ao shopping, aos Bancos
    Comprar sorvetes, automóveis e TV de Plasma.
    Consumir, poupar e investir.
    Beethoven não é necessário!
    Nietzsche é um ordinário!
    Esquerda é pra sectários!
    Pensar? Desde que juridicamente.
    TV Globo, SBT ou Record
    Luciano Huck, Faustão ou Gugu
    Ser solidamente imbecil
    Desde que solidamente.
    Ser etnocêntrico, jamais excêntrico.
    Mozart é dispensável
    Roberto Carlos não é lamentável.
    Seguir os ditames do cronômetro
    Ir às churrascarias ou rodízios de pizzas
    Respeitar empresários, desprezar mendigos
    Escolher criteriosamente os “bons” amigos
    Consumir, poupar, investir.
    Chopin é descartável
    Drummond de Andrade é depressivo
    Lair Ribeiro, Jô Soares e o Diário de um Mago
    Ter sempre uma bíblia embaixo dos braços
    Morar no Leblon, Barra ou Ipanema
    Defender a ocupação das favelas
    Estudar inglês e se formar em Engenharia
    Mahler não é importante
    Ser normal, fazer análise
    Usar terno e sapato de pelica
    Relógio de pulso e bolsa de couro
    Fernando Pessoa é um tresloucado
    Beber uísque e vinho importados
    Ser evangélico, temente a Deus.
    Orar, orar, orar.
    Horar, horar, horar.
    Honrar pai e mãe ser fiel e feliz
    Repetir opiniões consagradas para não errar o que diz
    Infinitivamente choro regularmente
    Sinto um tanto desmedidamente
    Pensar é do meu cotidiano
    Mas vou me esforçar pra tornar-me mediano
    Fazer autocrítica e procurar um “pastor”

    Antônio Carlos Teixeira



    Escrito por ViniDias às 09:11:01 AM
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    Dica de livro

    O livro Diário de Bitita de Carolina maria de Jesus foi publicado em 1982, anos após a morte da autora. Carolina estudou cerca de dois anos, num tempo em que o estudo era dado à crianças pobres por um "padrinho" mais rico e influente. Os críticos acreditam que estes dois anos de estudo não foi o suficiente para a escrita àvida da autora, mas sim sua personalidade inquieta e deslumbrada com a realidade que a cercava. Seus livros são relatos do dia a dia, crônicas sociais de uma época triste da História Brasileira.

    No livro Diário de Bitita o conteúdo é dividido em capítulos por temáticas, e os conteúdos destes se desenvolvem conforme as lembranças daquela temática. Vejamos um pouco do que o livro traz no capítulo Os negros.

     

    "O branco criou a alta sociedade, lá não entra o negro.
    Só a terra é que não tem orgulho. No mundo a humanidade
    nasce e morre. Quando o homem está vivo,
    vive com os cereais que saem da terra. E quando morre
    vai para o seio da terra. Ela não fala, mas é sábia. É
    a melhor obra de Deus.
    Eu gostava de frutas, mas era difícil conseguir dinheiro
    para comprá-las. Eu já estava notando que o
    pobre vive mais com as pretensões.
    Um dia ouvi a minha mãe contando que o meu tio
    Joaquim estava tomando água numa torneira pública
    – o chafariz – quando o filho do Juca Barão chegou
    e disse-lhe:
    — Sai daí negro sujo! Quem deve beber água primeiro
    sou eu, que sou branco – e empurrou meu tio, que
    ficou nervoso e retirou uma faquinha de arco de barril
    que ele fez , e deu um golpe na nuca do filho do Juca
    Barão, que caiu no solo sem vida.
    O meu tio não foi preso por ser menor.
    O juiz de direito era o doutor Brand. Os brancos reuniram-
    se e foram xingar o vovô:
    — Agora que os negros são livres, vão matar os brancos

    e já são protegidos pela lei.

    Estas cenas eram motivo para os portugueses ufanarem:
    — Estes atos selvagens são a conseqüência da liberdade.
    E vocês vão ver as coisas piores, pois o Rui chegou
    a dizer que, se o negro estudar, poderá ser governador,
    presidente, deputado, senador e até diplomata.
    Os negros que ouviam não respondiam, porque os portugueses
    eram ricos. Eles eram livres, mas pobres. Na questão
    de negro com o branco, ninguém procura saber com
    quem é que está a razão. E o negro é quem acaba sendo o
    bode expiatório."

    (Carolina de Jesus. Diário de Bitita. Rio de Janeiro:
    Nova Fronteira, 1986. p. 62-63).



    Escrito por ViniDias às 01:55:46 PM
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