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N coisas


Eu vou, eu fui, eu afirmo ( e coloco pra todo mundo ver)

 

O que leva uma pessoa afirmar o que ela acha a ponto de escrever em lugares públicos?

Bem, trata-se de objetos particulares, mas por estarem em andamento na via pública tornam-se públicos, os carros.

Começou a cerca de uns 5 anos aqui no Rio de janeiro são frases afirmativas. Coisa parecida era visto em carrocerias de caminhão, tinham um teor mais humorístico , mas as frases agora são afirmativas, fazem questão de dar um tom de segurança. tem as motivadoras, as musicais, os nomes de pessoas simplesmente e as pornográficas.

 

Existem linhas da psicologia que vêem o ser humano como um paradoxo, quando se diz “eu quero” é porque não se quer, na dificuldade de ser aceito, despreza-se, na dificuldade de dar amor, ofende-se, na preguiça diz “eu vou”. E não vai

 

As frases tops são: “Eu amo minha esposa”, “Foi Deus quem me deu”, “Só dou carona a quem me dá”. A última me parece a mais sincera, a segunda um agradecimento a uma força superior, a primeira é a que mais me causa dúvida. Porque ter que afirmar pra todo mundo que ama, que gosta e que fulana é insubstituível? Será que no dia a dia rola todo este amor na prática?

 

Em meu primeiro ano da faculdade parávamos nos corredores e discutíamos Freud, Jung e Platão. Tinhamos muitas certezas e estávamos muito certo do que queríamos. A vida é engraçada. Hoje estou quase terminando a graduação e me assusto com o tanto que não sei. Meus colegas dizem o mesmo O fato das pessoas de períodos mais adiantados e professores responderem as minhas dúvidas mais mirabolantes de maneira simples e objetiva me causava raiva. Numa palestra um professor psicanalista citava menos Lacan do que eu no primeiro período e em estudos de caso os nomes científicos nem eram citados. A psicologia parecia adaptada para uma linguagem simples dos bares e inferninhos. Assim também é com as pessoas mais vividas, os que tem a melhor idade. Quase sempre dão soluções tão simples para questões existências tão profundas que assusta.

 

Mas porque este papo veio parar aqui? Bem, porque eu acho que quem não é tem a necessidade de dizer que é, e vice versa. E como estou falando de frases de carro, faço uso de uma: “Quem não é não se mistura”

E reafirmo com outra de Mamelo Sound Sistem que vocifera na voz suave de Lourdes da Luz: “Quem é de verdade sabe quem é de mentira”

 

E assim eu sou, e assim eu vou e assim eu te amo.

 



Escrito por Vinicius D. às 11:33:05 PM
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Cuca, mula sem cabeça, homem da capa preta e o sorriso mais lindo

O Lipe Park está de volta a comunidade. Montado na metade da rua larga principal deixa apenas espaço para um carro passar. Caminho por meio das suas estruturas de metais, pregos, carrinhos de autopista, cavalos do carrosel e espingardas de bola. Junto a isso no MP3 está tocando 7 vezes do Rappa. A música e o "passeio" pelo parque parece se encaixarem. O Rappa tem uma mensagem metafórica, ainda não entendi muito bem o que quer dizer a música, me parece partículas de clamores religiosos, promessas divinas e indignação social. Assim como não entendo O Lipe Park, pra mim, mas tento compreender que é como uma promessa divina para as crianças, o que me faz afirmar isto são os sorrisos largos jamais vistos nos meus vizinhos de pouca idade.

7 vezes fala que seu nome foi escrito 7 vezes no mundo, parece um tom bíblico, mas não me lembro de ter visto esta passagem no livro hebraico. Minha visão altera com audição, vem e vai, ouço que todas as portas vão se abrir diante de teu nome. escrito 7 vezes eu também vi o nome Lipe Park, que as vezes estava escrito "Lip Park", são grafites desbotados, pintura clara misturados com desenhos de sereias, cavalos marinhos e bolhas de sabão.

O dia é chuvoso na zona oete do Rio, existem 3 operários do Lipe Park remendando lonas, apertando parafusos e pintando as hastes elétricas dos carrinhos. A noite sempre vejo um vigia, um senhor negro, magro, boné do Malboro, roupa camuflada, fuma cigarro de palha, aparece a desaparece entre os brinquedos do parque, me parece uma visão fantasmagórica. O vigia não tem postura intimidatória dos vigias, parece mais um espião, me desperta ( o espião fantasma e o parque) visões de criança. O fantasma vigia não encomoda as crianças que no começo da noite se divertem nas máquinas desligadas durante a semana. O parque altera a rotina de brincadeiras. O ingresso é R$2,50. Cinco por R$10,00. A festa da comunidade acontece no final de semana, enquanto os pais bebem cerveja os filhos se divertem no parque, algumas crianças choram das que riem enquanto os funcionários do lipe parque apertam botões, fumam cigarro e, como os pais, bebem cerveja gelada.

"Todas as portas vão se abrir" diz a música do Rappa. Parece a mesma esperança minutos antes de abrir as portas do caixão do terror. Deduzo isto pelos barulhos e gritos saídos de lá. O caixão do terror trata-se de uma caroceria de caminhão, um Mercedes da antiga onde a boleia é pintada com um homem da capa preta e cartola na cabeça. Em uma manhã ouvi na boleia do terror um choro de criança e logo atrás uma voz mais grossa: "Vai fazer a mamadeira". Pensei no vigia fantasma, nos operários, na loira peituda da bilheteria ou se alguma criança ficou presa no caixão do terror pelo homem da capa preta.

Lembro que fui alertado muitas vezes pelos meus pais da mula sem cabeça, do homem do saco, da cuca e outros seres que só via quando fechava os olhos.

A música do Rappa termina dizendo: "deixa o mundo avisado de teu nome". Sigo confuso vendo as crianças sorrindo, felizes enquanto eu fixo o olhar num parafuso solto, ferrugens e pinturas descascadas. Sinto falta do Playtoy, do Tivoli Park da lagoa, do circo de Moscow, eram momentos  esperados por mim e que a visão chata do adulto pouco se importava. Rodar até ficar tonto nas xícaras ouvindo um eco que ia e vinha: cuidadooooo.

Não me perguntem porque mas a música do Rappa, o lipe park, a mula sem cabeça e as crianças mais lindas do mundo me vem na cabeça e escrevo este texto pra registrar.

 



Escrito por Vinicius D. às 07:57:45 PM
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Vamos fazer alguma coisa!

Esperar alguém fazer ou falar que vai fazer não vale


Quinta-feira. Cheguei à rodoviária do plano piloto, o lugar mais imundo e horroroso de Brasília, daonde dá pra ver o Congresso Federal e todos aqueles prédios tortos de cartão postal (e daí?). Estou esperando o segundo ônibus que me levará para o meu primeiro local de trabalho, já que trabalho em dois lugares. Aquele barulho... acentuado pela porcaria de música da Rádio Rodoviária, como se ser pobre e pegar dois ônibus pra ir trabalhar não fosse ruim o suficiente. Mas, cadê os ônibus?? Tá certo que a gente já tá acostumado a esperar o ônibus por uma hora e que ele não tem hora marcada, mas não tem quase nenhum aqui. Eis então que a música do Calypso é interrompida por um trio elétrico, apitos e gritos de guerra. É o Movimento dos Sem Terra (MST), que chegou a Brasília numa passeata para uma reunião com um ministro. Eu saberia o nome do ministro, do ministério, do responsável pela reunião, mas não procurei e nem vou procurar. Deve ter isso em todos os outros jornais que vocês estão acostumados a ler. Mas meu texto não é sobre a reunião, nem sobre o MST, nem sobre o ministério. É sobre manifestações populares.

Com a baixaria no Senado na semana passada, muita gente ficou indignada e quis “fazer alguma coisa”. Aham, e aí? Fizeram? Com os atos secretos do Sarney, com o mensalão, muita gente ficou indignada e... e aí, fizeram “alguma coisa”? Eu só acho engraçado. Acredito num mundo melhor, acredito em muita utopia que às vezes só eu acredito, mas acredito ainda mais que muita gente é utópica por conveniência. É conveniente chegar e falar “Pessoal, precisamos fazer alguma coisa pelo Brasil! Vamos às ruas...” e uatchatcha. Mas ir, ninguém vai. Nem eu vou. Não me orgulho de dizer isso, mas pelo menos não reforço esse “fazer alguma coisa” da boca pra fora. “Se reunirmos muitas pessoas, somos mais do que eles, vamos lá!” E chegando lá, vai fazer o quê? Quebrar tudo como o MST fez algum tempo atrás, serem presos, espancados e humilhados pela opinião pública (entenda-se, pela grande mídia)?

Qual manifestação popular realmente funcionou? Olha só, vou esclarecer, não estudo história, tive péssimos professores dessa disciplina durante minha trajetória escolar e não me recordo de todas as principais, logo, não me cobrem precisão e acompanhem meu raciocínio. Sintam-se livres para discordar ou acrescentar eventos. Mas vamos lá. O impeachment do Collor é o mais recente e emblemático deles. Porém, não foi a opinião pública, os caras pintadas, quem botou o cara pra fora. Foi o Congresso. E SÓ o Congresso. Pressionado pelo povo? Talvez. Mas cheio de interesses particulares do caras lá de dentro.

O Sarney veio antes do Collor, lembram? Nossa, não é que ele continua lá dentro até hoje?? E agora, como presidente do Senado! Ou seja, se o Lula morrer, o Alencar morrer, o presidente da Câmara não puder assumir, o Sarney vira Presidente de novo, sabiam? Até convocarem as próximas eleições. E se fizerem um golpe de estado e ele virar presidente para sempre? Impossível?? Honduras viveu isso recentemente. Golpes não são coisas de um passado remoto ou de um povo atrasado. Aliás, acreditar que podemos reunir o povo como podíamos na década de 80 ou 90 é que acredito ser um pouco atrasado.

O contra argumento é: hoje temos a internet, o twitter, o Orkut, podemos reunir milhares de pessoas com um clique, repassando e-mails. E aí? Reuniram pessoas? Reuniram sim. Num shopping aqui em Brasília fizeram um tal de “Frozen Day”, algo assim, mas vários jovens foram para o shopping, e ficaram numa posição “congelada” por 10 minutos no pátio central do shopping. Dez minutos. Congelados. Exatamente como o país está há mais de 500 anos. Parado no tempo. Isso reuniu umas mil pessoas. Sem contar aquelas que viam o troço acontecendo e se juntavam só pra fazer graça com os amigos. E o “Fora Sarney” não reúne ninguém. O “luto pelo diploma de jornalismo” não reúne ninguém. A história do mensalão, ninguém. Eu também não estava lá. Não tô falando de uma “massa” invisível da qual não faço parte como a maioria dos acadêmicos. Eu não estava lá. Eu tava trabalhando, em dois empregos, estudando, me informando pra ser alguém com uma cabeça melhor na hora de votar. Só a educação salva. Só e somente. Manifestar-se ajuda a mostrar o que te inquieta, o que te incomoda, mas não muda absolutamente nada enquanto quem está na posição de mudar alguma coisa não se mexe.

Voltando ao MST, há quanto tempo esses caras existem, reunidos, como um movimento? Mais de dez anos. Mais de dez anos lutando, se manifestando, quebrando coisas, invadindo terras, dando entrevistas, exigindo a reforma agrária. O que eles conseguiram até agora? A MP da Grilagem, que, ao contrário do que eles queriam, não deu terra a quem não tinha, ao contrário, fez com que mais pessoas pudessem comprar terras na Amazônia. Se não entendeu é porque talvez eu não tenha explicado direito, procura no Google que é melhor. Procure as informações por conta própria ao invés de esperar “alguém” fazer “alguma coisa”. Se todos fizerem isso na hora de votar ao invés de esperar a nova pesquisa Ibope pra ver quem tá ganhando, teríamos melhores representantes dentro da “casa do povo” não acham? Só eles podem de fato mudar alguma coisa. Mas só você pode colocá-los lá dentro. E aí, em quem você votou? No Clodovil? No Frank Aguiar? No Collor? Você acha que eles se importam se você quer tirar o Sarney? Você realmente acha? Em quem você vai votar no ano que vem?



Escrito por Joceline Gomes às 01:20:51 PM
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Escrito por Vinicius D. às 10:53:47 PM
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Um mundo de sonhos e cores

 

Hora do remédio!

Hora do remédio!

 

E assim caminhava a funcionária pública em meio àquelas almas, sedentas de sexo, de fome, de amor, de chão e sorriso. O remédio talvez seja um dos momentos mais esperados de todo o seu dia. No caso de abstinência é fácil manipular para conseguir mais uma dose.

As internas desta instituição sabem todo o bulário, cores, dosagens, complicações e aplicações das drogas que funcionam como uma camisa de força imaginária. Sob o efeito destes remédios é instaurado um clima de tranqüilidade (dentro e fora do corpo de cada um, ali preso e ali solto). O remédio é a fuga de onde não se pode escapar, a travessia dos muros inalcançáveis, a descoberta de campos floridos, amizade, fala mansa, sonhos coloridos. As mentes ficam funcionando como um tic tac indo e vindo num balanço de pracinha, tudo é colorido, pastoso, suave e esquecido. A bandeja segue com seus copinhos borbulhantes destinados a Joana, Lara, Denise, tanto faz...as etiquetas que identificam a droga e sua dona, nada mais é do que o rótulo para a enfermeira não se perder, fazendo perdido o sonho da liberdade de cada menina. Talvez invadindo, arrombando, estupandro a linha fina da sanidade e da loucura. Um caminho sem volta, talvez.

 

O mundo de sonhos e cores para sempre.

 



Escrito por Vinicius D. às 03:49:40 PM
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