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Tiro no espelho

O tom dado pela mídia após a triste manifestação dos passageiros da Supervia foi a de que o povo não pode ser vândalo e jamais ter manifestações como a que ocorreu semana passada.

O secretário de transportes prometeu novos trens ainda esta semana, o tom era o mesmo dos repórteres: a de que o povo é culpado!

Não são novos os problemas da Supervia, e a muito tempo o povo aguenta calado os maus tratos desta concesionária. O que acontece é que aqui no Brasil, parece que quando o povo chega num limite, quebra, soca ou o patrimônio dos mais ricos é afetado, aí sim, convoca-se a imprensa, telefona-se para os líderes comunitários, as coisas se movimentam. Rápido! Tanto é assim que o secretário falou que semana que vem, esta semana, seriam comprados novos trens de ar condicionado. É assim, rápido!

A gota d'água foi no dia 9 de outubro, onde pela terceira vez na semana os trens estavam com falhas na circulação. O ramal de Santa Cruz foi o afetado na sexta feira, um dia antes foi o ramal de Japeri.

A polícia rapidamente é chamada para cumprir seu papel: reprimir, atirar balas de borracha em senhoras grávidas e spray de pimenta em trabalhadores, enquanto logo ali em cima, no Morro da Providência, o comércio de crack é feito com forte aumento. Meninos de sete, oito, nove anos são vistos nas redondezas da central pedindo R$0,50 para uma "bala".

Parecem assuntos desconexos, mas não, são bem próximos. A polícia no futuro terá menos trabalho, pois milhares destas crianças não terão chances de reivindicar, da sua maneira, um melhor transporte. Já estarão mortas, devastadas pelo poder destrutivo desta droga que leva centenas de pessoas todas as semanas. É um labirinto doente, onde sempre, sempre, o pobre é o que paga. Uma massa de pobres reivindicando melhorias do transporte. Transporte este sustentado pelos pagantes (os pobres) que são os mesmos rechaçados por policiais, e que os policiais (maioria pobre) parecidos na cor, na estatura com os que sangram e correm das balas de borracha, que por sua vez também parecem muito quando eram crianças com os meninos craqueiros das redondezas da central, parecem também com seus filhos. Olhem a cor, a submissão no olhar passageiro, o andar tropego, a curvatura da coluna. Sim, são estes pobres que matam os caras que parecem ser seus irmãos e isso já dizia MV Bill.

Neste momento, pessoas de uma pele diferente destes irmãos suados, com roupa passada e um bom cheiro decidem o que farão com a fúria do povo. Geralmente tem encontro em gabinetes de cor de madeira, bebidas servidas em bandejas, quando não um risco de cocaína, não a cocaína do morro da providência, claro, mas a dos importadores de alto nível da cidade do Rio de Janeiro.

 



Escrito por Vinicius D. às 11:52:46 AM
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Você finge que ensina e eu finjo que aprendo

cerca de 6 meses tive conhecimento do que é o sistema socioeducativo. Ainda não sei nada, mas percebo algumas sistematizações e resolvo compartilhar com os leitores do blog.
Falar "do sistema" já é algo difícil. A palavra sistema está sempre nos rondando para se referir a algo maior, geralmente que oprime, é uma terceira pessoa que não existe, é como se o falante não fizesse parte do sistema. É assim também no SISTEMA socioeducativo.
O sistema socioeducativo do Rio de Janeiro é administrado pelo Departamento Geral das Ações Socioeducativas , Degase, que
cuida dos adolescentes em conflito com a lei enquanto o Departamento do Sistema Penitenciário do Rio de Janeiro ou DESIPE, cuida dos maiores de idade. No DESIPE encontram-se  muitos homens que estiveram em conflito com a lei na adolescência e hoje são “descumpridores da lei. Os termos usados para penas parecidas são diferentes no contexto socioeducativo e no sistema penitenciário. E este jogo de palavras parece cair muito bem, pois são usadas conotações mais brandas para parecer um "sistema" educacional”, “social”, “de inclusão social”. No livro Filhas do mundo (ED. Fiocruz) a pesquisadora Simone Gonçalves de Assis faz uma viagem histórica e percebe que o cenário hoje é bem melhor do que anos atrás. A intenção parece ser mesmo o que a palavra socioeducativa sugere: ações sociais e educativas. Lugares internos nas unidades de internação (prisões) para adolescentes como a “solitária” (cubículo sujo, úmido e sem iluminação) não existem mais. Então hoje os discursos são em prol da melhoria. O que não se pode admitir é uma negociação com o que ainda pode ser melhorado e irmos empurrando com a barriga nos confortando com dados de melhorias, o que não são suficientes, visto o alto número de reincidências, visto a implementação do SINASE em que muitos agentes nem sabem do que se trata. O jogo de palavras e sentido, parece uma maneira de ludibriar o X da questão. Comecemos por este jogo bonito e bem enlaçado das palavras, que dá todo um significado esplendoroso. A prisão é um termo que não existe no sistema socioeducativo.  Ele é substituído por "unidade de internação", ou quando o adolescente recebe uma “progressão de medida”, a progressão de medida é o cumprimento de uma pena mais branda. Assim vista pela justiça. Por exemplo, um adolescente progride da internação (prisão) para a semi-liberdade. A semiliberdae é uma medida socioeducativa onde o adolescente já tem direito a certas regalias: ir para casa final de semana, fumar mais, receber mais visitas, um ambiente com muros mais baixos. O adolescente nunca está preso e sim "temporariamente privado de seu direito de ir e vir", sim são palavras que se transformam em frases na intenção de esconder toda uma crueldade que a sociedade não quer assumir. Assumir que muito antes destes adolescentes cometerem um delito, suas famílias eram negligenciadas de direitos básicos como saúde e educação. O Estado não dá a devida atenção a estes direitos, não se preocupa com os altos índices de alcoolismo nestas famílias, prostituição infantil, suicídio, enfim, nem a sociedade cobra isto, ao cometer o delito, o estado (principal negligenciador) é o primeiro a agir com seu SISTEMA repressor e aí todo o processo é uma cobrança de leis, justo pela visão massacrante deste jogo desleal. O delito  é a ponta do iceberg, um fato limite que estoura toda uma história de dor, de segregação. Voltemos às palavras que  me chamam a atenção na dissimulação nossa de cada dia. A solitária acabou e veio a “tranca”, que não é mais “tranca” e virou "reflexão". Trata-se de adolescentes que não andaram na linha da unidade, desrespeitaram as leis internas e foram para o alojamento e então ficam lá, sem fumar, sem conversar com outros. Uma prisão dentro da prisão. “Menor” é “adolescente em conflito com a lei”.
A Constituição é uma outra mentira, pois em seus artigos dos direitos sabemos que não se tem direito é a nada, principalmente estas crianças que na sua maioria são negras, pobres e carentes de tudo. Este é o perfil dos adolescentes infratores, ou em conflito com a lei, ou trombadinha, ou seja lá o que for. O nome muda pra uma situação que não muda.
Remédio é um outro crime que ainda acontece nas unidades do Degase: meninos que nem na tranca ficam mais calmos (para o padrão de calmaria que os agentes querem) são dopados com altas doses de remédios.
  Um “sossega leão” que transforma os mais exaltados em exemplos de serenidade. Mesmo que esta super dosagem dê efeitos colaterais como a virada de olhos, o inchaço dos corpos, a dependência química o que importa é manter a tranquilidade de cada plantão (24 horas de trabalho por 72h de folga). Existem agentes que são educadores, tem o papel de amenizar conflitos, usar de pedagogia para um melhor aproveitamento de cada adolescente. Na prática não vemos diferenças entre os agentes que parecem um bando de recriminadores, atentos aos adolescentes perigosos.

Socioeducativo. Social e educativo. Fica notório que a reincidência no sistema socioeducativo é três vezes menor que no sistema prisional. Aqui cabe uma dúvida: será que o período da adolescência, um período curto da vida, comparado com o restante, é suficiente para se fazer esta comparação? Visto que muitos dos presos adultos já passaram pelo sistema de menores?
Talvez sejam reincidentes, mas hoje em um outro sistema, um sistema mais cruel em que, neste sim, não se tem nada, nada de educativo, nem nome nem nada, só de deseducativo.  Não se educa, não se ensina nada, não se tem o que é asegurado na lei maior. E o adolescente que passa pelo sistema socioeducativo não leva nenhum registro para a posterioridade. Aqui cabe-me ressaltar o papel fundamental, humanístico que as ONG’s e grupos religiosos fazem nestas prisões, tratando cada pessoa como um verdadeiro homem/mulher, com respeito e atenção as particularidades.

 


Veja agora o que diz o artigo 1 da constituição federal.

 

TÍTULO I
Dos Princípios Fundamentais

Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
I - a soberania;
II - a cidadania;
III - a dignidade da pessoa humana;
IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;
V - o pluralismo político.
A cidadania? A dignidade da pessoa humana? É esta a lei que julga e determina o caminho a ser seguido dos que deveriam ser assegurados por estas palavras bonitas, mas que na verdade parece tudo mentira. Você finge que aprende, e eu finjo que ensino, é assim que funciona. E assim milhares de funcionários públicos vão para seu plantão de 24 horas, recebem seus salários, compram comida para suas famílias e ficam felizes, fingindo, ou não acreditanto que o perigo mora ao lado, que cada um de nós é responsável por "este sistema".


 

 



Escrito por Vinicius D. às 11:23:33 PM
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