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Só as mães são felizes


Era manhã. Mais um dia de trabalho, normal. Pegar o trem, tomar café com minha mãe falando pra não esquecer de lavar o copo, pão queimando e todo o fluxo inesgotável do cotidiano rugindo mais alto que a televisão e as notícias espelhos do ontem.

Mas por sorte, ou destino, ou acaso, eu percebi. Eram dois, unidos, idas e vindas que me fizeram perguntar ao vento leve: têm eles destino, cotidiano, dia a dia ou luta? Sem resposta, prossegui curioso, admirado, olhando aquele casal de andorinhas que pouco a pouco construía um ninho na entrada do bocal de uma lâmpada na varanda de mi casa. Começaram a fazer parte do meu cotidiano, que esta hora estava mudado juntamente com o pão queimado. Despertei com minha mãe gritando: “que cheiro é esse?”, respondi: “é o cheiro de quem vai ser mandado embora hoje” e meti o pé, atrasado, com aqueles dois de barriga branca e postura imponente na minha cabeça.

Começamos uma certa cumplicidade: eles, uma família, e a nossa família. Momentaneamente era uma família só... Todos os dias, admirávamos; sentiam confiança em nós, voavam baixo, paravam no fio da antena e não se espantavam com qualquer movimento brusco que fazíamos. Senti que nos tornamos amigos em toda aquela confusão do dia a dia: TV ligada, máquina de lavar batendo, despertador, gritos... Tinha curiosidade de saber quem era o macho e quem era a fêmea. Curiosidade boba de humano. Conversamos por cerca de uma semana. Sempre iam dormir por volta das sete da noite do horário de verão, mas quando eu chegava da faculdade sempre ouvia barulhos lá de dentro do bocal, sempre me davam boa noite, eu retribuía: durmam com Deus!

Uma movimentação estranha começou, eram idas e vindas com alimentos no bico, um certo desespero eu notei, não entedia muita coisa, mas estava feliz com minha nova amizade. Um dia os dois saíram, me pediram pra tomar conta da casa, respondi que sim com a cabeça, sorriram e se foram, mas lá de dentro continuava as vozes, um pedido não sei de que, mas me passava desamparo. Click! Deram a luz! Estavam grávidos! Nasceu! Quantos? Será que são educados iguais os pais? Puro devaneio. No dia seguinte acordei com alguns cantos de socorro. Fui ver. Dois pequenos pendurados por uma linha presa a um arame do bocal. Os pais continuavam sua missão: vinham e davam o alimento na boca de um, depois na boca do outro. Os bichinhos se debatiam, raspavam a pata um no outro, ferindo o irmão. Tenho medo de qualquer animal com pena, creio que pela criação em um quintal com galinheiro e muita matança de aves para o almoço de domingo minha maneira psíquica de resolver toda esta chacina foi o nojo e o medo. Chamei meu irmão que, diferente de mim, é quase um biólogo. Pegamos a escada e meu irmão cortou a linha que mais parecia um bungee jump. Levei tesoura, alicate, mertiolate, pomada. Meu irmão parecia um médico em uma mesa de transplante, concentrado, o único movimento que eu via era saindo de suas mãos algumas penas negras e brancas, ele dizia: “calma, calma meus irmãos”. Saiu o diagnóstico: “com a linha amarrada e a tentativa de se libertarem, um perdeu a patinha e com o sangue que saiu criou uma espécie de casca e as patas estão agarradas. Preciso trabalhar e deixarei eles ali no canto”. Eu agradeci a meu irmão. Parecia parte de nossa família, todos estavam preocupados e ali percebi o tamanho de meu medo, o medo que deixa as pessoas incapacitadas de tomarem uma atitude, o medo paralisante, o pior dos medos. Um pássaro morreu, precisava fazer algo, agora era um passarinho agarrado ao irmão morto, uma cena nada legal. Os pais pareciam me pedir ajuda. Liguei pro Rocio, um vizinho amigo. Rocio veio analisou a situação e falou: vou pegar o alicate e a lupa. Arregalei os olhos e ele me explicou: Vinicius, um já está morto, só nos resta cortar a pata do morto e deixar o vivo com mais liberdade. Mesmo estando morto considerei estranho “cortar a perna dele”, mas tudo bem, fiquei na torcida. Assim o segundo médico fez, agora tínhamos um passarinho livre que ainda não conseguia voar, um bípede deficiente. Coloquei-o em uma caixa de sapato. Os pais vinham trazer sua alimentação. No dia seguinte, meu irmão estava feliz e triste ao mesmo tempo, como eu. Feliz por um estar vivo, triste pela morte do outro. Eu era um Yng e Yang ambulante. E assim achei que eram papai e mamãe andorinha. Mesmo assim ouvi um seco agradecimento do papai andorinha, nem ousei dizer “dinada”. Não sei porque motivo, talvez um preconceituoso, percebi que um dos dois estava com a respiração mais ofegante, era mais coração, se arriscava mais nos rasantes e as vezes até atacava quem chegasse muito perto de seu filho: essa passou a ser a mãe pra mim!

Um dia, eu e meu irmão, voltando da rua, vimos o filhote nos olhar. Ele bateu as asas três vezes e voou cerca de três metros. Nos olhamos assustados e muito felizes, meus olhos lacrimejaram. Apesar de todo o seu esforço, ali o pássaro estava e ali ficou. Meu irmão o pegou e o soltou de novo, bateu asas e foi pra rua. Fomos ver onde estava. Ali, ao lado de nosso portão, acuado, com medo e respiração rápida. Incentivamos novamente. Agora sim, deu seu primeiro vôo longo, cerca de dez metros de altitude e uns cem metros de distância em voltas e parou no segundo andar de nosso lar. Fomos lá em cima e o vimos ao lado do sofá. Meu irmão o pegou e o colocou de novo no ninho para ser alimentado pelos pais. Assim foi feito até ontem, quando esperaram eu chegar da rua, ele e a mãe, apenas pra me dar adeus. E foi com sua mãe voando em círculos, um bicando o outro, brincando, um rasante pelos coqueiros da casa do Roberto, uma passagem pela mangueira da Dona Lice. Mãe e filho juntos, um exemplo.



Escrito por Vinicius D. às 06:21:08 PM
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O Haiti não é aqui. Aqui é paz e amor.

Fui a casa do companheiro Fernando. Fernando já morou na Ilha, no centro, em Santa Cruz, na rua e hoje mora nas 3 pontes.

A 3 pontes é uma comunidade (maneira suave de se chamar uma favela) e o clima neste domingo era de muita descontração. Fernando por onde passa vai falando com os vizinhos, brincando com as crianças e com os mais velhos, o que me deixou bem a vontade de sorrir para as pessoas. Perguntei como estava a favela para Fernando e ele me falou que está bem melhor do que um tempo atrás. Ali em cerca de um ano passou pela tentativa de invasão do Comando Vermelho, pelo domínio das facções TCP (terceiro comando puro), ADA (amigos dos amigos, Milícia e uma tentativa de liderança da Polícia. Esta última foi a mais frustrada.

Almocei, jogamos dominó e brincamos muito com as crianças. O clima resumidamente é de animação e simplicidade. Ainda existem bandidos espalhados pela comunidade, mas sem um poder efetivo armado, a venda de drogas está em decadência pelas diversas invasões (e morte!!) pela polícia e depois de um tempo de gestão por parte da Milícia (grupo que não permitia a venda de drogas e consumo em lugares públicos). A situação no Rio de Janeiro é de uma particularidade que carece de estudos. Qualquer observador com o mínimo de sensibilidade percebe que para além do problemas das drogas, da violência gerada por elas, está um problema de desatenção do estado, de carência extrema, faltas diversas: de saúde, de moradia, educação, assistência social mesmo. Qual a maneira que o estado escolhe para mostrar serviço nestas comunidades: a repressão por parte da polícia. O secretário de segurança do Rio de janeiro, José Mariano Beltrame após uma operação no dia 17 de dezembro de 2009 na comunidade Cidade de Deus disse: “A Unidade Pacificadora permite que as forças policiais e o Ministério Público atuem do modo como deve ser feito à medida que ela quebra com a lógica de território armado”, este Senhor estava se referindo a uma nova "tática" da polícia em que se põe um carro da P.M na entrada da favela, outro percorrendo a comunidade de hora em hora, um container com o adesivo do Governo do estado lá dentro ou na entrada. Pronto! Está aí mais um projeto maravilhoso escrito por doutores em ar condicionado e cadeiras acolchoadas. Resolve o problema? Nada! Mascara-se!! A mídia apóia e tudo parece maravilhoso. Foi assim com o lançamento das UPA's (Unidade de pronto atendimento), inclusive foram as UPA's que serviram como gabação do governo atual, o governo do Sr. Sérgio cabral. A UPA do cezarão hoje não tem condições de quase nada, não tem ortopedista não tem nada, muitos atendimentos são encaminhados para hospitais próximos (que já estão abarrotados). Na Vila Kenedy estão fazendo outra UPA, com certeza é uma jogada política para a próxima eleição que vem a galope.

Um grande exemplo a ser seguido é o exemplo das forças militares da ONU que auxiliaram o Haiti a um tempo atrás. O Haiti sofria, como aqui, com o problema da criminalidade. O exército ao entrar nas comunidades juntou o poder bélico (e a repressão foi necessária), mas com isso entrou com um forte corpo de Psicólogos, Assistentes sociais, Médicos, Dentistas, Professores, Pedagogos, Sociólogos. Hoje o problema da criminalidade e da qualidade de vida das favelas Haitianas está bem melhor. Vejam o documentário que retrata esta nova fase Haitiana AQUI.

Seria um bom exemplo a ser seguido pelas autoridades aqui. Operações mirabolantes por parte do CORE, do BOPE só servem para a população se indignar mais com a polícia (que deveria ser encarada como parceira) e para matar mais vidas inocentes. Cerca de uma vez por ano é feito uma mega operação na Rocinha em que se aprende muita quantidade de drogas e armamentos, depois disso em alguns dias o tráfico volta. Hoje é possível ver os meninos vendendo Cocaína quando o ônibus que vem da Zona Sul para na avenida Lagoa Barra. O problema é enxugado, colocado pra baixo do tapete. O mais importante que é a propina policial e o público elegante da Zona Sul não ficar sem sua fuga da realidade continua na paz e no amor.

 



Escrito por Vinicius D. às 03:48:27 PM
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A falta de Lacan ou uma tentativa de entendimento

Muitas vezes me falta a palavra. Foi lendo uma revista que fala de Lacan que percebi o porque que o mestre é tão venerado no meio Psicanalítico, pois o mestre sacou a influência da linguagem em nós, a linguagem é fio condutor dos encontros, das guerras, do amor...basicamente o que nos diferencia dos animais e o que não consegue expressar toda nossa falta, somente o silêncio! E o silêncio também é fala para a psicanálise. A palavra é saída do simbólico e o simbólico nunca é o real, o real é o "indizível", o que não se tem acesso, o real sempre nos escapa e nos resta o significado particular, nossa maneira de ver o mundo, que depende de como estamos neste mundo. Enquanto Freud se esforçou para ser claro parece que seu discípulo fez questão de ser obscuro, o diálogo se tornava interessante com o mestre pois nesta incerteza que causava ao ouvinte lhe dava chance de explicar: "não foi bem isso que você entendeu"...e...mais pensamento.

No encontro Direito e Psicanálise realizado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, Jean Pierre Lebron, falava de uma nova antropologia disse que hoje os neuróticos de Freud não se caracterizam pela dúvida e a incapacidade de ser, mas sim pela necessidade - e ação- de ser o que não se é, assim clarifica comportamentos como as plásticas, as depressões por um nível inalcançável de beleza, os remédios para ficar tranquilo, a internet, a violência...A violência também é uma forma no jovem de mostrar o "que ele é", na presença da falta da palavra se dá a incapacidade do diálogo, o roubo, a agressão verbal querendo falar além, não sobrou nada e o ato violento foi o escape de seu estar no mundo, o gozo para Lacan, ou seja, a pulsão para Freud, esta força insasiável que vaza nos objetos de desejo, eleitos pela capacidade de poder se realizar o que é irrealizável, os objetos de desejo serão os mais próximos, os substitutos de objetos inacalçáveis que não posso ter. A meta é o gozo, seja com algo primordial ou um substituto. Não importa! Esta idéia sempre nos acompanha na forma do que Lacan chamou de Imaginário, que também é uma maneira de se dar conta do real, uma maneira mais amiga, mais amena, tolerável.

Tanto Lacan quanto Freud deixaram espaços abertos em seus escritos para questionamentos, não pareciam estar com a inteção de escrever uma verdade absoluta, Lacan inclusive pede para não ser imitado. Assim se deu uma forte corrente de Pós-Lacanianos, uma corrente atual com vasta produção teórica que tenta explicar os comportamentos sociais da atualidade, todos, desde os tempos de Freud até hoje tendo o incosciente e uma força sexual como matriz de todo comportamento.



Escrito por Vinicius D. às 03:40:13 PM
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Carta aberta ao Anjo Siridom

Tua maneira de ver a vida é linda. Apaixonante.
E o que será o mundo, ou a verdade, se não as formas de olhares, pluRaIS.
Pois quando falamos de metade de copo vazio ou metade cheio o que muda é o meu, o teu, os nossos modos de olhares, acredito que o ser humano está sempre tentando ver beleza no mundo. Tu consegue! E o que salvará o mundo? A beleza! Isso foi Dostoyevski que disse, fui eu não, eu só concordo. E acredito que teu mundo é salvo, intacto e brilhante nesses teus momentos de visão tua, só tua, que compartilha comigo.
Eu te imito, tu é exemplo pra mim.



Escrito por Vinicius D. às 05:05:19 PM
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Tô na mão

Hoje presenciei um casal brigando dentro de um carro. A cena era: carro com uma porta aberta no canto da rua, alerta ligado, moça xingando  e batendo em um rapaz com muita raiva, rapaz também batia na moça. Fiquei comovido, mas resolvi não se meter, passei olhando na vontade de meu olhar censura-los e por um segundo de respiração pararem com a briga. Não funcionou. Passei. Dez passos a frente veio um rapaz e perguntou: "Estão brigando?", falei "Sim", e pensei: pronto, este é justiceiro, vai lá, vai falar pra pararem com isso e que semana que vem estarão bem. Pra minha surpresa o rapaz deu meia volta com a bicicleta, olhou pra mim e disse: " Pena que eu to na mão".

Aí surgiu outra sequencia de pensamentos: esta "segurança" em que as pessoas armadas sentem é algo muito forte para emcobrir um medo muito grande. Covardes andando com peito estufado pelo pedaço de ferro que fere, retirando a arma estão feridos por dentro, fragilizados, carentes. Bem, há casos e casos. Na questão dos policiais e bandidos (e vice-versa!) há aí o fator proteção: ou mato ou morro. Mas o cidadão que me parou parecia ser um pacato cidadão, sem camisa, após o banho da tarde, curtindo o mormaço relutante de um dia de muito calor no Rio de janeiro, andando calmo com sua bicicleta em uma avenida principal de um bairro pobre. Não poderia assim ser bandido. Nem polícia. (Para simplificar colocaremos bandido e polícia em uma mesmo none, ok?) Então, o cidadão não poderia ser bandido. Mas por trás da sua frase carente deixava claro sua submissão, seu medo, sua falta para encobrir a parte faltante, a capacidade do diálogo, sua auto-aceitação num estado mais natural, seu, seu corpo apenas. Sua bicicleta. Se indignou, como eu. Mas soltou a frase ameaçadora acompanhada da atitude medrosa ao mesmo tempo covarde. Ou seja, poderia agir, mas não agiu (assim como eu), agiria sim, se tivesse com a arma, mas sem ela, é incapaz, tem medo. Eu também tive medo, mas caminhei para casa orando aos céus com a mente engatilhada, pensando na violência.



Escrito por Vinicius D. às 01:09:24 AM
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Tiro no espelho

O tom dado pela mídia após a triste manifestação dos passageiros da Supervia foi a de que o povo não pode ser vândalo e jamais ter manifestações como a que ocorreu semana passada.

O secretário de transportes prometeu novos trens ainda esta semana, o tom era o mesmo dos repórteres: a de que o povo é culpado!

Não são novos os problemas da Supervia, e a muito tempo o povo aguenta calado os maus tratos desta concesionária. O que acontece é que aqui no Brasil, parece que quando o povo chega num limite, quebra, soca ou o patrimônio dos mais ricos é afetado, aí sim, convoca-se a imprensa, telefona-se para os líderes comunitários, as coisas se movimentam. Rápido! Tanto é assim que o secretário falou que semana que vem, esta semana, seriam comprados novos trens de ar condicionado. É assim, rápido!

A gota d'água foi no dia 9 de outubro, onde pela terceira vez na semana os trens estavam com falhas na circulação. O ramal de Santa Cruz foi o afetado na sexta feira, um dia antes foi o ramal de Japeri.

A polícia rapidamente é chamada para cumprir seu papel: reprimir, atirar balas de borracha em senhoras grávidas e spray de pimenta em trabalhadores, enquanto logo ali em cima, no Morro da Providência, o comércio de crack é feito com forte aumento. Meninos de sete, oito, nove anos são vistos nas redondezas da central pedindo R$0,50 para uma "bala".

Parecem assuntos desconexos, mas não, são bem próximos. A polícia no futuro terá menos trabalho, pois milhares destas crianças não terão chances de reivindicar, da sua maneira, um melhor transporte. Já estarão mortas, devastadas pelo poder destrutivo desta droga que leva centenas de pessoas todas as semanas. É um labirinto doente, onde sempre, sempre, o pobre é o que paga. Uma massa de pobres reivindicando melhorias do transporte. Transporte este sustentado pelos pagantes (os pobres) que são os mesmos rechaçados por policiais, e que os policiais (maioria pobre) parecidos na cor, na estatura com os que sangram e correm das balas de borracha, que por sua vez também parecem muito quando eram crianças com os meninos craqueiros das redondezas da central, parecem também com seus filhos. Olhem a cor, a submissão no olhar passageiro, o andar tropego, a curvatura da coluna. Sim, são estes pobres que matam os caras que parecem ser seus irmãos e isso já dizia MV Bill.

Neste momento, pessoas de uma pele diferente destes irmãos suados, com roupa passada e um bom cheiro decidem o que farão com a fúria do povo. Geralmente tem encontro em gabinetes de cor de madeira, bebidas servidas em bandejas, quando não um risco de cocaína, não a cocaína do morro da providência, claro, mas a dos importadores de alto nível da cidade do Rio de Janeiro.

 



Escrito por Vinicius D. às 11:52:46 AM
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Você finge que ensina e eu finjo que aprendo

cerca de 6 meses tive conhecimento do que é o sistema socioeducativo. Ainda não sei nada, mas percebo algumas sistematizações e resolvo compartilhar com os leitores do blog.
Falar "do sistema" já é algo difícil. A palavra sistema está sempre nos rondando para se referir a algo maior, geralmente que oprime, é uma terceira pessoa que não existe, é como se o falante não fizesse parte do sistema. É assim também no SISTEMA socioeducativo.
O sistema socioeducativo do Rio de Janeiro é administrado pelo Departamento Geral das Ações Socioeducativas , Degase, que
cuida dos adolescentes em conflito com a lei enquanto o Departamento do Sistema Penitenciário do Rio de Janeiro ou DESIPE, cuida dos maiores de idade. No DESIPE encontram-se  muitos homens que estiveram em conflito com a lei na adolescência e hoje são “descumpridores da lei. Os termos usados para penas parecidas são diferentes no contexto socioeducativo e no sistema penitenciário. E este jogo de palavras parece cair muito bem, pois são usadas conotações mais brandas para parecer um "sistema" educacional”, “social”, “de inclusão social”. No livro Filhas do mundo (ED. Fiocruz) a pesquisadora Simone Gonçalves de Assis faz uma viagem histórica e percebe que o cenário hoje é bem melhor do que anos atrás. A intenção parece ser mesmo o que a palavra socioeducativa sugere: ações sociais e educativas. Lugares internos nas unidades de internação (prisões) para adolescentes como a “solitária” (cubículo sujo, úmido e sem iluminação) não existem mais. Então hoje os discursos são em prol da melhoria. O que não se pode admitir é uma negociação com o que ainda pode ser melhorado e irmos empurrando com a barriga nos confortando com dados de melhorias, o que não são suficientes, visto o alto número de reincidências, visto a implementação do SINASE em que muitos agentes nem sabem do que se trata. O jogo de palavras e sentido, parece uma maneira de ludibriar o X da questão. Comecemos por este jogo bonito e bem enlaçado das palavras, que dá todo um significado esplendoroso. A prisão é um termo que não existe no sistema socioeducativo.  Ele é substituído por "unidade de internação", ou quando o adolescente recebe uma “progressão de medida”, a progressão de medida é o cumprimento de uma pena mais branda. Assim vista pela justiça. Por exemplo, um adolescente progride da internação (prisão) para a semi-liberdade. A semiliberdae é uma medida socioeducativa onde o adolescente já tem direito a certas regalias: ir para casa final de semana, fumar mais, receber mais visitas, um ambiente com muros mais baixos. O adolescente nunca está preso e sim "temporariamente privado de seu direito de ir e vir", sim são palavras que se transformam em frases na intenção de esconder toda uma crueldade que a sociedade não quer assumir. Assumir que muito antes destes adolescentes cometerem um delito, suas famílias eram negligenciadas de direitos básicos como saúde e educação. O Estado não dá a devida atenção a estes direitos, não se preocupa com os altos índices de alcoolismo nestas famílias, prostituição infantil, suicídio, enfim, nem a sociedade cobra isto, ao cometer o delito, o estado (principal negligenciador) é o primeiro a agir com seu SISTEMA repressor e aí todo o processo é uma cobrança de leis, justo pela visão massacrante deste jogo desleal. O delito  é a ponta do iceberg, um fato limite que estoura toda uma história de dor, de segregação. Voltemos às palavras que  me chamam a atenção na dissimulação nossa de cada dia. A solitária acabou e veio a “tranca”, que não é mais “tranca” e virou "reflexão". Trata-se de adolescentes que não andaram na linha da unidade, desrespeitaram as leis internas e foram para o alojamento e então ficam lá, sem fumar, sem conversar com outros. Uma prisão dentro da prisão. “Menor” é “adolescente em conflito com a lei”.
A Constituição é uma outra mentira, pois em seus artigos dos direitos sabemos que não se tem direito é a nada, principalmente estas crianças que na sua maioria são negras, pobres e carentes de tudo. Este é o perfil dos adolescentes infratores, ou em conflito com a lei, ou trombadinha, ou seja lá o que for. O nome muda pra uma situação que não muda.
Remédio é um outro crime que ainda acontece nas unidades do Degase: meninos que nem na tranca ficam mais calmos (para o padrão de calmaria que os agentes querem) são dopados com altas doses de remédios.
  Um “sossega leão” que transforma os mais exaltados em exemplos de serenidade. Mesmo que esta super dosagem dê efeitos colaterais como a virada de olhos, o inchaço dos corpos, a dependência química o que importa é manter a tranquilidade de cada plantão (24 horas de trabalho por 72h de folga). Existem agentes que são educadores, tem o papel de amenizar conflitos, usar de pedagogia para um melhor aproveitamento de cada adolescente. Na prática não vemos diferenças entre os agentes que parecem um bando de recriminadores, atentos aos adolescentes perigosos.

Socioeducativo. Social e educativo. Fica notório que a reincidência no sistema socioeducativo é três vezes menor que no sistema prisional. Aqui cabe uma dúvida: será que o período da adolescência, um período curto da vida, comparado com o restante, é suficiente para se fazer esta comparação? Visto que muitos dos presos adultos já passaram pelo sistema de menores?
Talvez sejam reincidentes, mas hoje em um outro sistema, um sistema mais cruel em que, neste sim, não se tem nada, nada de educativo, nem nome nem nada, só de deseducativo.  Não se educa, não se ensina nada, não se tem o que é asegurado na lei maior. E o adolescente que passa pelo sistema socioeducativo não leva nenhum registro para a posterioridade. Aqui cabe-me ressaltar o papel fundamental, humanístico que as ONG’s e grupos religiosos fazem nestas prisões, tratando cada pessoa como um verdadeiro homem/mulher, com respeito e atenção as particularidades.

 


Veja agora o que diz o artigo 1 da constituição federal.

 

TÍTULO I
Dos Princípios Fundamentais

Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
I - a soberania;
II - a cidadania;
III - a dignidade da pessoa humana;
IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;
V - o pluralismo político.
A cidadania? A dignidade da pessoa humana? É esta a lei que julga e determina o caminho a ser seguido dos que deveriam ser assegurados por estas palavras bonitas, mas que na verdade parece tudo mentira. Você finge que aprende, e eu finjo que ensino, é assim que funciona. E assim milhares de funcionários públicos vão para seu plantão de 24 horas, recebem seus salários, compram comida para suas famílias e ficam felizes, fingindo, ou não acreditanto que o perigo mora ao lado, que cada um de nós é responsável por "este sistema".


 

 



Escrito por Vinicius D. às 11:23:33 PM
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Papo de Nostalgia

Vivo a 30 anos em Santa Cruz, é relativamente longe do centro do Rio. O costume destes trinta anos modificaram o que parece dificuldades para uns em prazer para mim. Admiro pessoas que moram mais perto reclamarem em chegar no centro às 8 da manhã. Tudo é costume, assim como tudo é cultura. Tudo, na verdade é relativo. A velha história do metade vazio ou metade cheio...

Uma das vantagens que coloco pra mim em morar longe do centro é o clima meio rural da zona oeste. Por aqui ainda temos estradas longas, de chão batido que da pra dar uma caminhada matinal com o mp3 bem alto sem se preocupar se vem carro, e se vier tenho a certeza que ele esperará até me tocar para aí sim passar. Não sei bem explicar, talvez tenha um bairrismo disfarçado , sinto cheiros e sinto as pessoas mais tranquilas na rua, um clima bem diferente das zonas sul, norte, centro. Algo parecido percebi também em um lado de Madureira. Tomei a liberdade nos 2 anos que trabalhei em Madureira de dividi-la em duas partes. A parte do Mercadão, que é a parte do comércio, dos ambulantes, dos salgadinhos e de muito tumulto, também a parte da Portela, do Império, do Shoping, das rodas de samba e o lado do SESC, do senac, de lojas de pano e de colégios, cursos. Este lado é outra Madureira, uma Madureira parecida com a zona oeste. Cada lugar é um lugar, nada é parecido, tudo é único, mas escrevo este texto vindo de minhas lembranças, e minha referência inevitavelmente é o lugar que moro, tudo pela viajem de hoje. São duas horas no ônibus, o ônibus direto, que só para em uns 20 pontos no centro da cidade e depois pega uma espécie de corredor expresso chamado seletiva na Av. Brasil. Bota Mp3, lê livro, dorme, olha paisagem, ri do ambulante, compra Jujuba. E não chega. Caminho no decorrer da semana pelas bandas da Ilha do Governador também, na divisa da baixada fluminense pois trabalho em Ricardo de Albuquerque, zona sul, lugar de bacana, zona norte nas idas à UERJ e no centro que é um lugar obrigatório, dali saem todas as linhas de ônibus, trem, é o centro né? Acredito que seja assim na sua aldeia também.

Mas é aqui, e volto a falar, não em tom que aqui é melhor. Aqui rola uns pipocos também. (Você sabe o que é um pipoco?). É aqui minha origem. Não estou preso, mas sinto falta do feijão à lenha da Dona Sebastiana. Sou nostálgico. Sim sou.

Estes dias vi uma senhora as 10 horas da noite a se balançar enfrente ao portão, era uma cadeira de balanço daquelas antigas, madeira macica, assento trançado de palhinha. É um dos objetos de desejo para meu lar, além de uma pickup, móveis de madeira e uma boa rede de casal. Preciso receber um salário que me permita comprar estes sonhos de consumo, é todo o meu sonho consumista. Durmo pensando nisso. Ah, um Opala também é bem vindo.

De manhã passa o homem do Aipim, diz ele que é aipim manteiga, da base aérea. Passam o homem que vende redes (meu sonho de consumo!), o homem do alho, o padeiro, o do ferro velho. Um tempo atrás tinha o do pintinho, que trocava panelha velha, garrafa e papelão por pintos coloridos que mesmo tratados com todo amor e carinho não passavam de 2 meses de vida ou o equivalente a 200 gramas, morriam sempre na madrugada. Era sempre uma icógnita e uma choradeira da criançada pela manhã. Isso foi na época que morei na Rua General Olímpio, conhecida como Jaqueira, lá tinha pé de Abil, caqui, araçá e lá também que descobri que morango dá no chão, rasteiro, assim como abóbora. Sim tinhamos isso tudo, além de amor, surra quando pegava a Monark dobrável sem pedir a mamãe e castigo de uma semana sem ver o Bozo.



Escrito por Vinicius D. às 07:58:15 PM
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Visões de um domingo deserto no centro do Rio

Tarde no Rio de janeiro, mais específico, Praça XV, caminho para pegar as barcas para Niterói e vejo uma cena surpreendente. Um morador de rua levanta e joga milhos próximo aos seus pertences. Uma enchurrada de pombos voam em sua direção como seus amigos, ele sorri, volta pro seu assento e fica ali, admirando a vida.

 

 

A noite (6/9/2009) o prédio da Petrobrás, na avenida Chile do Rio de janeiro dava um ar de modernidade no deserto que é o centro do Rio nos domingos.



Escrito por Vinicius D. às 04:34:41 PM
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Eu vou, eu fui, eu afirmo ( e coloco pra todo mundo ver)

 

O que leva uma pessoa afirmar o que ela acha a ponto de escrever em lugares públicos?

Bem, trata-se de objetos particulares, mas por estarem em andamento na via pública tornam-se públicos, os carros.

Começou a cerca de uns 5 anos aqui no Rio de janeiro são frases afirmativas. Coisa parecida era visto em carrocerias de caminhão, tinham um teor mais humorístico , mas as frases agora são afirmativas, fazem questão de dar um tom de segurança. tem as motivadoras, as musicais, os nomes de pessoas simplesmente e as pornográficas.

 

Existem linhas da psicologia que vêem o ser humano como um paradoxo, quando se diz “eu quero” é porque não se quer, na dificuldade de ser aceito, despreza-se, na dificuldade de dar amor, ofende-se, na preguiça diz “eu vou”. E não vai

 

As frases tops são: “Eu amo minha esposa”, “Foi Deus quem me deu”, “Só dou carona a quem me dá”. A última me parece a mais sincera, a segunda um agradecimento a uma força superior, a primeira é a que mais me causa dúvida. Porque ter que afirmar pra todo mundo que ama, que gosta e que fulana é insubstituível? Será que no dia a dia rola todo este amor na prática?

 

Em meu primeiro ano da faculdade parávamos nos corredores e discutíamos Freud, Jung e Platão. Tinhamos muitas certezas e estávamos muito certo do que queríamos. A vida é engraçada. Hoje estou quase terminando a graduação e me assusto com o tanto que não sei. Meus colegas dizem o mesmo O fato das pessoas de períodos mais adiantados e professores responderem as minhas dúvidas mais mirabolantes de maneira simples e objetiva me causava raiva. Numa palestra um professor psicanalista citava menos Lacan do que eu no primeiro período e em estudos de caso os nomes científicos nem eram citados. A psicologia parecia adaptada para uma linguagem simples dos bares e inferninhos. Assim também é com as pessoas mais vividas, os que tem a melhor idade. Quase sempre dão soluções tão simples para questões existências tão profundas que assusta.

 

Mas porque este papo veio parar aqui? Bem, porque eu acho que quem não é tem a necessidade de dizer que é, e vice versa. E como estou falando de frases de carro, faço uso de uma: “Quem não é não se mistura”

E reafirmo com outra de Mamelo Sound Sistem que vocifera na voz suave de Lourdes da Luz: “Quem é de verdade sabe quem é de mentira”

 

E assim eu sou, e assim eu vou e assim eu te amo.

 



Escrito por Vinicius D. às 11:33:05 PM
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Cuca, mula sem cabeça, homem da capa preta e o sorriso mais lindo

O Lipe Park está de volta a comunidade. Montado na metade da rua larga principal deixa apenas espaço para um carro passar. Caminho por meio das suas estruturas de metais, pregos, carrinhos de autopista, cavalos do carrosel e espingardas de bola. Junto a isso no MP3 está tocando 7 vezes do Rappa. A música e o "passeio" pelo parque parece se encaixarem. O Rappa tem uma mensagem metafórica, ainda não entendi muito bem o que quer dizer a música, me parece partículas de clamores religiosos, promessas divinas e indignação social. Assim como não entendo O Lipe Park, pra mim, mas tento compreender que é como uma promessa divina para as crianças, o que me faz afirmar isto são os sorrisos largos jamais vistos nos meus vizinhos de pouca idade.

7 vezes fala que seu nome foi escrito 7 vezes no mundo, parece um tom bíblico, mas não me lembro de ter visto esta passagem no livro hebraico. Minha visão altera com audição, vem e vai, ouço que todas as portas vão se abrir diante de teu nome. escrito 7 vezes eu também vi o nome Lipe Park, que as vezes estava escrito "Lip Park", são grafites desbotados, pintura clara misturados com desenhos de sereias, cavalos marinhos e bolhas de sabão.

O dia é chuvoso na zona oete do Rio, existem 3 operários do Lipe Park remendando lonas, apertando parafusos e pintando as hastes elétricas dos carrinhos. A noite sempre vejo um vigia, um senhor negro, magro, boné do Malboro, roupa camuflada, fuma cigarro de palha, aparece a desaparece entre os brinquedos do parque, me parece uma visão fantasmagórica. O vigia não tem postura intimidatória dos vigias, parece mais um espião, me desperta ( o espião fantasma e o parque) visões de criança. O fantasma vigia não encomoda as crianças que no começo da noite se divertem nas máquinas desligadas durante a semana. O parque altera a rotina de brincadeiras. O ingresso é R$2,50. Cinco por R$10,00. A festa da comunidade acontece no final de semana, enquanto os pais bebem cerveja os filhos se divertem no parque, algumas crianças choram das que riem enquanto os funcionários do lipe parque apertam botões, fumam cigarro e, como os pais, bebem cerveja gelada.

"Todas as portas vão se abrir" diz a música do Rappa. Parece a mesma esperança minutos antes de abrir as portas do caixão do terror. Deduzo isto pelos barulhos e gritos saídos de lá. O caixão do terror trata-se de uma caroceria de caminhão, um Mercedes da antiga onde a boleia é pintada com um homem da capa preta e cartola na cabeça. Em uma manhã ouvi na boleia do terror um choro de criança e logo atrás uma voz mais grossa: "Vai fazer a mamadeira". Pensei no vigia fantasma, nos operários, na loira peituda da bilheteria ou se alguma criança ficou presa no caixão do terror pelo homem da capa preta.

Lembro que fui alertado muitas vezes pelos meus pais da mula sem cabeça, do homem do saco, da cuca e outros seres que só via quando fechava os olhos.

A música do Rappa termina dizendo: "deixa o mundo avisado de teu nome". Sigo confuso vendo as crianças sorrindo, felizes enquanto eu fixo o olhar num parafuso solto, ferrugens e pinturas descascadas. Sinto falta do Playtoy, do Tivoli Park da lagoa, do circo de Moscow, eram momentos  esperados por mim e que a visão chata do adulto pouco se importava. Rodar até ficar tonto nas xícaras ouvindo um eco que ia e vinha: cuidadooooo.

Não me perguntem porque mas a música do Rappa, o lipe park, a mula sem cabeça e as crianças mais lindas do mundo me vem na cabeça e escrevo este texto pra registrar.

 



Escrito por Vinicius D. às 07:57:45 PM
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Vamos fazer alguma coisa!

Esperar alguém fazer ou falar que vai fazer não vale


Quinta-feira. Cheguei à rodoviária do plano piloto, o lugar mais imundo e horroroso de Brasília, daonde dá pra ver o Congresso Federal e todos aqueles prédios tortos de cartão postal (e daí?). Estou esperando o segundo ônibus que me levará para o meu primeiro local de trabalho, já que trabalho em dois lugares. Aquele barulho... acentuado pela porcaria de música da Rádio Rodoviária, como se ser pobre e pegar dois ônibus pra ir trabalhar não fosse ruim o suficiente. Mas, cadê os ônibus?? Tá certo que a gente já tá acostumado a esperar o ônibus por uma hora e que ele não tem hora marcada, mas não tem quase nenhum aqui. Eis então que a música do Calypso é interrompida por um trio elétrico, apitos e gritos de guerra. É o Movimento dos Sem Terra (MST), que chegou a Brasília numa passeata para uma reunião com um ministro. Eu saberia o nome do ministro, do ministério, do responsável pela reunião, mas não procurei e nem vou procurar. Deve ter isso em todos os outros jornais que vocês estão acostumados a ler. Mas meu texto não é sobre a reunião, nem sobre o MST, nem sobre o ministério. É sobre manifestações populares.

Com a baixaria no Senado na semana passada, muita gente ficou indignada e quis “fazer alguma coisa”. Aham, e aí? Fizeram? Com os atos secretos do Sarney, com o mensalão, muita gente ficou indignada e... e aí, fizeram “alguma coisa”? Eu só acho engraçado. Acredito num mundo melhor, acredito em muita utopia que às vezes só eu acredito, mas acredito ainda mais que muita gente é utópica por conveniência. É conveniente chegar e falar “Pessoal, precisamos fazer alguma coisa pelo Brasil! Vamos às ruas...” e uatchatcha. Mas ir, ninguém vai. Nem eu vou. Não me orgulho de dizer isso, mas pelo menos não reforço esse “fazer alguma coisa” da boca pra fora. “Se reunirmos muitas pessoas, somos mais do que eles, vamos lá!” E chegando lá, vai fazer o quê? Quebrar tudo como o MST fez algum tempo atrás, serem presos, espancados e humilhados pela opinião pública (entenda-se, pela grande mídia)?

Qual manifestação popular realmente funcionou? Olha só, vou esclarecer, não estudo história, tive péssimos professores dessa disciplina durante minha trajetória escolar e não me recordo de todas as principais, logo, não me cobrem precisão e acompanhem meu raciocínio. Sintam-se livres para discordar ou acrescentar eventos. Mas vamos lá. O impeachment do Collor é o mais recente e emblemático deles. Porém, não foi a opinião pública, os caras pintadas, quem botou o cara pra fora. Foi o Congresso. E SÓ o Congresso. Pressionado pelo povo? Talvez. Mas cheio de interesses particulares do caras lá de dentro.

O Sarney veio antes do Collor, lembram? Nossa, não é que ele continua lá dentro até hoje?? E agora, como presidente do Senado! Ou seja, se o Lula morrer, o Alencar morrer, o presidente da Câmara não puder assumir, o Sarney vira Presidente de novo, sabiam? Até convocarem as próximas eleições. E se fizerem um golpe de estado e ele virar presidente para sempre? Impossível?? Honduras viveu isso recentemente. Golpes não são coisas de um passado remoto ou de um povo atrasado. Aliás, acreditar que podemos reunir o povo como podíamos na década de 80 ou 90 é que acredito ser um pouco atrasado.

O contra argumento é: hoje temos a internet, o twitter, o Orkut, podemos reunir milhares de pessoas com um clique, repassando e-mails. E aí? Reuniram pessoas? Reuniram sim. Num shopping aqui em Brasília fizeram um tal de “Frozen Day”, algo assim, mas vários jovens foram para o shopping, e ficaram numa posição “congelada” por 10 minutos no pátio central do shopping. Dez minutos. Congelados. Exatamente como o país está há mais de 500 anos. Parado no tempo. Isso reuniu umas mil pessoas. Sem contar aquelas que viam o troço acontecendo e se juntavam só pra fazer graça com os amigos. E o “Fora Sarney” não reúne ninguém. O “luto pelo diploma de jornalismo” não reúne ninguém. A história do mensalão, ninguém. Eu também não estava lá. Não tô falando de uma “massa” invisível da qual não faço parte como a maioria dos acadêmicos. Eu não estava lá. Eu tava trabalhando, em dois empregos, estudando, me informando pra ser alguém com uma cabeça melhor na hora de votar. Só a educação salva. Só e somente. Manifestar-se ajuda a mostrar o que te inquieta, o que te incomoda, mas não muda absolutamente nada enquanto quem está na posição de mudar alguma coisa não se mexe.

Voltando ao MST, há quanto tempo esses caras existem, reunidos, como um movimento? Mais de dez anos. Mais de dez anos lutando, se manifestando, quebrando coisas, invadindo terras, dando entrevistas, exigindo a reforma agrária. O que eles conseguiram até agora? A MP da Grilagem, que, ao contrário do que eles queriam, não deu terra a quem não tinha, ao contrário, fez com que mais pessoas pudessem comprar terras na Amazônia. Se não entendeu é porque talvez eu não tenha explicado direito, procura no Google que é melhor. Procure as informações por conta própria ao invés de esperar “alguém” fazer “alguma coisa”. Se todos fizerem isso na hora de votar ao invés de esperar a nova pesquisa Ibope pra ver quem tá ganhando, teríamos melhores representantes dentro da “casa do povo” não acham? Só eles podem de fato mudar alguma coisa. Mas só você pode colocá-los lá dentro. E aí, em quem você votou? No Clodovil? No Frank Aguiar? No Collor? Você acha que eles se importam se você quer tirar o Sarney? Você realmente acha? Em quem você vai votar no ano que vem?



Escrito por Joceline Gomes às 01:20:51 PM
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Escrito por Vinicius D. às 10:53:47 PM
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Um mundo de sonhos e cores

 

Hora do remédio!

Hora do remédio!

 

E assim caminhava a funcionária pública em meio àquelas almas, sedentas de sexo, de fome, de amor, de chão e sorriso. O remédio talvez seja um dos momentos mais esperados de todo o seu dia. No caso de abstinência é fácil manipular para conseguir mais uma dose.

As internas desta instituição sabem todo o bulário, cores, dosagens, complicações e aplicações das drogas que funcionam como uma camisa de força imaginária. Sob o efeito destes remédios é instaurado um clima de tranqüilidade (dentro e fora do corpo de cada um, ali preso e ali solto). O remédio é a fuga de onde não se pode escapar, a travessia dos muros inalcançáveis, a descoberta de campos floridos, amizade, fala mansa, sonhos coloridos. As mentes ficam funcionando como um tic tac indo e vindo num balanço de pracinha, tudo é colorido, pastoso, suave e esquecido. A bandeja segue com seus copinhos borbulhantes destinados a Joana, Lara, Denise, tanto faz...as etiquetas que identificam a droga e sua dona, nada mais é do que o rótulo para a enfermeira não se perder, fazendo perdido o sonho da liberdade de cada menina. Talvez invadindo, arrombando, estupandro a linha fina da sanidade e da loucura. Um caminho sem volta, talvez.

 

O mundo de sonhos e cores para sempre.

 



Escrito por Vinicius D. às 03:49:40 PM
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Escândalos, denúncias, jornalistas, jornais e afins

Uma breve (e pessoal) versão do que está por trás de tudo isso

Eu poderia estar roubando, poderia estar matando, mas estou aqui, escrevendo um protesto em um blog de alguém que escreve muito bem. Sou jornalista (a do blog Randômico, que o autor citou no texto abaixo) e sinto-me indiciada a comentar ainda mais o penúltimo texto publicado aqui, sobre jornais de R$ 0,50 e tal. Mas queria chamar a atenção pra outras pequenas grandes coisinhas também.

Alguém já percebeu que a maioria das denúncias contra o presidente do Senado saíram no jornal O Estado de S. Paulo? Será que os jornalistas de lá são tão melhores e mais perspicazes que todo o resto, que só eles são capazes de descobrir essas coisas e mais ninguém?

Conforme escrevi num comentário no antepenúltimo post (há muitos comentários meus espalhados por aqui ^^), há algo que a maioria das pessoas desconhece. Por trás da denúncia, do escândalo e da mobilização da opinião pública depois de uma notícia, existe uma vingança pessoal, um assessor ganhando dinheiro por fora, ou ainda (quase sempre) uma oposição/concorrência sem ética. O que quero dizer é: às vezes, o que parece um grande furo do jornalista, que ele foi atrás e desvendou o mistério e uatchatcha, na verdade, foi apenas um maço de papel entregue especialmente na mão dele. Simples assim.

Chega alguém e fala: tem coisa boa pra você aí, vai bombar no jornal/revista amanhã. Você acha que o sigilo da fonte serve pra proteger quem? O jornalista, na maioria das vezes! Ele que quer continuar sendo visto como paladino da justiça, protetor da verdade, desbravador da realidade. Porém, ele também é um ser humano, e, como tal, tudo que ele produzir vai ter um traço de si próprio. Mas o jornalista também é influenciado pela linha editorial do local onde trabalha. Ou seja, exageros, sensacionalismos, omissões... parte de si, parte da empresa, parte do fato, parte do espaço para a matéria, parte dos anunciantes. É uma galera por trás de cada linha no papel.

Voltando no cara com os papéis, ele chega, entrega o calhamaço e diz: lê aí, tem matéria boa aí dentro. O ponto é: porque tal jornal e não outro? Leitores, amigo. Público alvo. Mas ser amigo do cara também ajuda. Você há de concordar que uma denúncia no “Jornal do Piauí” não tem o mesmo impacto que teria no O Globo ou (quem diria?!) no Estadão – os jornais mais lidos do país (suposição minha, não fui atrás dessa informação. Que jornalista ruim eu sou, hein?)

Vejam bem, não estou dizendo que não existam repórteres éticos que descobrem de verdade as coisas. Às vezes, ele só deu azar de trabalhar no jornal de R$ 0,50 e o editor resolve que a matéria descoberta fica mais bonita no jornal de R$ 3,00. Os dois fazem parte do mesmo conglomerado de mídia, a mesma empresa de porte nacional, o lucro vai pro mesmo bolso. Aí ele pega todo o material do jornalista, tudo mastigado, apurado, com foto, documento e gravação, e passa pro cara que tá nas graças do editor-chefe escrever. Às vezes é questão de talento também, sabe? Fulano apura muito bem mas não sabe escrever. Passa tudo pro Beltrano.

Enfim, a questão é: denúncia, escândalo, epidemia? Claro que vende! No fundo, todo mundo quer é ver o oco! Mas existem ocos e ocos. A linha editorial dos grandes conglomerados funciona da seguinte forma: o oco que o leitor do jornal de R$ 0,50 quer ver é o do favelado morto ontem; já o leitor do jornal de R$ 3,00 quer ver o do político corrupto em quem ele mesmo votou. Logo, a César o que é de César, e notícia de um não se vê no outro. Entendem?

É triste, é revoltante, mas é simples assim. Pode reparar. Se chegar a ver notícias iguais, são com enfoques, tamanhos, fotos e destaques diferentes, ou seja, outra matéria. Eles simplesmente subjugam a capacidade das classes C,D e E de analisarem os fatos e dão apenas o que eles acreditam que será compreendido: matou, morreu, enterrou, prendeu, mulher pelada, novela. Fim.

Faço minhas as palavras do texto publicado aqui e também vejo com otimismo o fato de mais e mais pessoas lerem jornais. Mas, como apontei no comentário, não vejo com bons olhos o que eles lêem. Não sei se o que eles precisam é de matérias sobre política e economia ou de mais sangue e morte, ou ainda de jogar o jornal no lixo. Só sei que acredito em um outro jornalismo, que é capaz de reconhecer que existem notícias boas, que merecem ser dadas. Sei também que precisamos é de mais ética no jornalismo e na política brasileira. Mas isso também é pedir demais...



Escrito por Joceline Gomes às 10:31:52 PM
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